Pare. Olhe. Escute.

Posted on Posted in A relação mente-corpo, Estilo de Vida

Sim, o último texto que publiquei aqui foi sobre parar. Este também é meio sobre parar. O que eu posso fazer? Parar é importante. E esse é bem diferente do outro, então vem comigo rapidinho, lê aqui.

Não vou ficar me repetindo, claro, então você já sabe que eu acho que estamos muito acelerados. E, honestamente, acho que essa sensação de estar em alta velocidade nunca foi tão presente pra mim quanto nos últimos tempos.

Não sei como funciona para vocês, mas sinto como se estivesse num furacão de pensamentos durante dias e dias seguidos, sem foco, sem organização, exausta e cheia de ansiedade. Furacão de pensamentos é oficialmente um termo técnico daqui do site, inventei agora. É real e vamos usá-lo, até alguém aparecer com um melhor.

Mas tá, então… Tenho me sentido assim com a cabeça girando com questões, decisões, incertezas, inseguranças, medo, antecipação, reflexões de todo tipo. Não só pensamentos sobre mim, mas sobre clientes, amigas, clientes-amigas, conhecidas, sobre o país, o mundo, o universo e também pensamentos sobre a mecânica de aviões (eu não gosto muito de aviões) ou ponderando a dificuldade de fazer pamonha.

Sim, aviões e pamonha. Porque esse fenômeno não é seletivo, é tudo quanto pensamento misturado aqui dentro, e tem uns bem improváveis. E uns trechos de músicas em repetição infinita no meio, claro.

Daí recentemente, numa manhã de típico furacão, numa dessas em que nem sei se os pensamentos deram uma paradinha durante a noite, porque já iniciei em alta velocidade, nesta manhã bem assim… Meu cérebro resolveu ele mesmo que era hora de um intervalo.

Pare. Olhe. Escute.


Foi a memória que me surgiu vívida bem no meio da confusão.Não sei quantas de vocês já estiveram próximas de linhas de trem, mas, aqui no Brasil, é comum que elas tenham uma placa com esses dizeres bem em frente. E eu já morei numa cidade bem, bem pequena – na verdade, morei entre essa cidade pequena e outra menor ainda, num sítio, mas conto mais sobre isso numa outra hora -, que tinha uma linha de trem, e eu via essa placa quase todos os dias.No meio da cidadezinha, os trilhos da linha de trem, e, na frente deles, a placa. Pedindo pra a gente sair do automático e focar a nossa atenção no que estava acontecendo. Mesmo que eu nunca tenha visto um trem passar ali em todo o tempo que morei lá, lembro dos (raros) carros desacelerando nos paralelepípedos, seus motoristas olhando vagamente ao redor no quase completo silêncio. E atravessavam.No meio do meu furacão, a placa. Que eu não via ou de que não me lembrava há quase 12 anos.

Acho que essa foi uma mensagem bem gráfica do meu cérebro, hein? Que cês acham? Eu acho que o trabalho dele aí foi bem legal, queria até usar esse espaço aqui pra agradecer ao meu cérebro. Brigada mesmo!

(Está vendo quantas interrupções e digressões este texto já tem? Essa aqui mesmo é uma. Eu sei que faço isso, mas hoje tá demais. Prova do aceleramento. Então, perdão, será um texto bem bagunçado, sim.)

Daí, depois desse recado direto e inesperado de mim pra mim mesma, eu parei. Por uns 5 minutos, talvez, mas parei. Tentei exercitar um “olhar” sobre o que estava pensando e concluí que 7h da manhã, logo após abrir os olhos, provavelmente não seria o melhor dos momentos para fazer uma lista mental de mercado, de uma compra que seria feita em outro estado e dali a duas semanas. E olha que eu nem tô brincando nesse exemplo.

Percebi também que a maior parte dos pensamentos que eu estava tendo nesse período não eram exatamente as reflexões úteis que imaginava, mas simples reações ao ambiente. Calma, vou explicar.

Quando pensei em coisas que precisava dizer a minha mãe, não estava contemplando uma melhoria na nossa relação, mas reagindo a alguma lembrança negativa que me surgiu. Quando pensei sobre os aviões, não estava demonstrando interesse genuíno em aprender, mas apenas reagindo ao medo. E essas reações serviam para me ocupar, me desviar do que eu estava sentindo – frustração, mágoa, receio.

E, ok, nós somos seres de estímulos e reações sim, em grande parte. Nossa sobrevivência depende disso. Mas, e quando essa reatividade da mente começa a nos distanciar do que realmente estamos sentindo?

E quando a vontade de comer é uma reação a alguma dor ou frustração?
E quando a vontade de dormir se torna uma reação a algo difícil de ser encarado?
E quando a vontade de comprar vem para substituir algo que você nem sabe que é?

E quando um mal-estar inespecífico é uma reação de resistência a alguma coisa que não queremos ver?

Como um jeito de não olhar para o que dói.

Ok. Agora,

COR-TA.

Mas tava tudo caminhando tão bem, por que “corta”? A gente tava chegando a algum lugar aqui. Vamos mudar de assunto?

Bom, pode parecer que mudamos de assunto, porque estou continuando este texto com três meses de atraso de quando comecei. E que período doido foi esse.

Por outro lado, estaremos falando exatamente da mesma coisa, só que de um jeito diferente. Vamos lá.

Por cerca de 4 meses, eu tive uma dor estranhíssima. Imaginem que, sendo quem sou e tendo essa mente que acabei de descrever a vocês, explorei inúmeros diagnósticos possíveis durante esse período. Os exames não mostravam o que eu esperava ou não ajudavam em nada. Fiquei ansiosa. E, acima de tudo, tive um medo monstruoso.

Talvez eu esteja soando exagerada, e tudo bem, porque posso ter sido mesmo. E não vou conseguir passar pra vocês com clareza o que senti nesse período e o que ele significou pra mim, porque acho que foi uma experiência muito particular e difícil de ser explicada. Foi algo quase físico, esse medo que senti. Apenas imaginem, se já não estiveram em situação parecida, o pior medo de todos. Todos temos ele, não temos?

Pois então. Mas ele não estava claro pra mim.

Não vou entrar em detalhes pra a gente não se perder mais aqui, mas o que realmente interessa é que, durante esses dias, minha mente só funcionava em função da dor. Eu não parava de pesquisar sobre e pensar em sintomas, diagnósticos, causas e consequências. Me ocupando e distanciando. Reagir e reagir, como se esse fosse o caminho de alguma solução.

E quando a preocupação excessiva com algo e a necessidade de controle são formas de não reconhecer uma fragilidade? Ansiedade sem fim.


E ansiosa eu estava até que eu fui gentilmente convidada pelo meu (incrivelmente sensível e emocionalmente articulado) companheiro a compartilhar o que eu estava sentindo. Nossa, como foi difícil aceitar que eu estava com medo e falar sobre ele.

Funcionou como uma… mudança de perspectiva. Muito radical e horrível de encarar, é verdade – acho que ninguém gosta de olhar a fragilidade das coisas e de si mesmo assim de forma tão clara. Mas também foi fantasticamente eficiente.

Pare. Olhe. Escute. Agora, de uma perspectiva completamente nova.

Veja que a obsessão com a dor é bem parecida com a urgência em me ocupar com todo tipo de questão, de lista de compras a aviões. Uma espécie de fuga, resistência.

Mas do que quero fugir?

O que realmente está me afetando?

Estou interagindo ou só reagindo? É assim que quero passar os meus dias?

O que eu preciso comunicar?

No meu caso com a dor, era o medo. As respostas são absolutamente pessoais, claro, mas a reflexão é universal. E a gente não está acostumado a esse tempo de contemplação, acho. Somos reação, reação, reação.

Temos dificuldade de abrir mão do controle e aprendemos que através de ação vamos chegar ao resultado esperado, mas nem sempre é assim que funciona.

Às vezes não é possível continuar, às vezes as ações escolhidas não são o que precisamos de verdade, às vezes precisamos de ajuda.

Sei que parece contra intuitivo pensar que parar, contemplar e comunicar podem realmente cuidar de um medo, uma frustração, uma mágoa. Parecia estranho pra mim e, nossa, como me surpreendi.

Não sei se essa clareza é o tipo de coisa que a gente ganha pra sempre ou que tem data de validade, sumindo tão logo apareça um novo conjunto de problemas.

Enquanto ela não vai embora, estou aqui compartilhando.

E acredito que, acima de tudo, o problema da reatividade que aponto é também o problema da dificuldade de comunicação. Não contemplamos a nós mesmos de verdade e aí não conseguimos conectar e comunicar, então nos ocupamos com outras coisas.

Se reajo comendo, dormindo, ofendendo ou me fechando em mim mesma obcecada com um problema, quero comunicar. Quero poder dizer que estou triste, chocada, ofendida, sozinha, perdida, confusa, insegura. Mas não reconheço o que sinto, não digo com palavras, e as minhas ações reativas ficam carregadas com essa energia. Nós também não somos bons em notar essa comunicação no outro, e ficamos todos isolados, reagindo e reagindo, comunicando ao nada.

Para mim, essa looonga e necessária reflexão trouxe uma conclusão interessante e também, não posso negar, meio óbvia:

Aqui nesta vida, neste planeta, nesta dimensão, tudo o que temos somos uns aos outros, são as nossas relações. E elas dependem totalmente da qualidade da comunicação. Precisamos nos conectar para nos entender e melhorar, e isso só é possível com mais contemplação e menos reação.

Reagir é evitar nossos sentimentos, reagir é falar sozinho. E falar sozinho pode ser muito angustiante.

Sendo assim, quero deixar uma reflexão mais prática pra vocês:

Ao que você pode estar reagindo atualmente?

Essa reação é uma escolha sua, é consciente?

Será que sua reação é uma resposta adequada?

O que você poderia contemplar melhor?

O que sente que precisa descobrir? O que está pedindo a sua atenção de verdade? O que você tem medo de mostrar?

O que você quer comunicar?

 Abra um espaço para si mesma, para se contemplar, e assim você abrirá espaço para outras pessoas. As ações virão também, em seu tempo, mais focadas e eficientes.

Pare. Olhe. Escute.


Imagens: Reprodução Tumblr