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Parar faz parte

Oiê.

Vim aqui conversar com vocês um pouquinho sobre parar.

Pode ser parar por cansaço, por falta de ânimo ou porque mudanças estão acontecendo e é preciso se dar um tempo. Nem importa tanto a razão, porque, como eu quero compartilhar aqui hoje, acredito que parar também é parte da vida.

Parar é necessário e importante.
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Recentemente, eu parei, e foi horrível.

Só que foi bom também – foi a coisa de que eu mais precisava e foi a melhor coisa que poderia ter acontecido.

Mas estou me adiantando.

Vamos do começo:

No meu trabalho – e na vida em geral – me deparo constantemente com pessoas que precisam parar. Não é uma coisa muito difícil de perceber, sabe? Você nota. A pessoa está cansada ou não está lidando bem com alguma coisa e precisa parar um pouco. Às vezes, ela mesma diz: “nossa, preciso parar um pouco.”

Mas ela não para. Ninguém para.

É praticamente regra, acho. Eu sinto extrema dificuldade de parar. Por que demorei tanto tempo pra escrever sobre isso?

Sinceramente, não sei. Acho que simplesmente não passou pela minha cabeça. Mas algumas boas respostas alternativas seriam:

Por vergonha. Medo do julgamento. Medo de estar vulnerável e de parecer fraca. Medo do que poderiam pensar de mim.

Se você parar (!) bem pra pensar, esses são motivos que me impedem até de escrever sobre isso, então imagina a dificuldade de fazer de fato, levar à frente a proposta, escolher parar.

Não quero parar e não quero falar sobre isso, não quero nem pensar sobre isso. Por medo e vergonha.

tumblr_o8iwsyhijl1u8rtwro2_1280Também não paramos porque não sabemos parar, acho. Não fomos ensinados a fazer isso. Até quando acreditamos que estamos parados, a mente está aceleradíssima em planos, angústias, lembretes, lembranças, arrependimentos e a vontade de olhar mais uma vez as mensagens – “será que já me respondeu?”. Isso não é parar. A gente nem sabe como é – Eu mesma não sei direito.

Mas esse “parar” real, meio budista e elevado, não pode ser o foco deste texto. Eu nem poderia falar de algo que não pratico, que não sei fazer.

Vamos falar do “parar” normalzinho, aquele parar de leve, o parar gente-como-a-gente, que dá pra fazer agora mesmo. Pode até incluir um filme e uma olhada nas mensagens, sim.

Então…  Desconfio que associamos esse ato de parar –  o trabalho, as obrigações, as preocupações, os afazeres, os compromissos etc. – diretamente com o fracasso. Parar é fracassar e desistir.

E ter sucesso, bom, ter sucesso pode significar muitas e diferentes coisas para diferentes pessoas, comunidades e culturas, mas, para quase todas, ele não inclui a possibilidade de parar um pouco.

Sucesso é algo que fica lá longe, uma coisa muito específica e, comumente, inalcançável. Sempre falta um pouco pra chegar nele. E aí?

Aí não dá pra parar. Parar significa não buscar o sucesso, não encontrá-lo e, claro, fracassar.

Então, mesmo que só tenha escolhido passar a tarde sentada no banco de um parque tomando sorvete, porque precisava de um descanso, você falhou miseravelmente. Não precisa necessariamente acontecer algo de ruim, sabe? Parar pode ser catastrófico por si só.

Sabe por quê? Porque nós temos a tendência de considerar apenas um tipo de produtividade: aquela que dá dinheiro, que gera status, a produtividade imediata para o mercado. Bom, como sempre, essa é a minha percepção, claro. Continuemos.

Não é comum enxergarmos como produtivo um momento em que escolhemos uma roupa bonita, fazemos carinho naquele cachorrinho simpático demais que cruzou com a gente na rua, saímos para conversar com amigas ou simplesmente ficamos jogadas na cama olhando pro teto (de um jeito legal e reflexivo, não um jeito chateado e desesperançoso).

il_570xn-645094233_t388Porque, afinal de contas, não tem nada de produtivo em cuidar de si mesma.

E olha, eu não estou com vontade de falar da coisa ÓBVIA que é o fato de que ninguém que está mal e cansada vai conseguir ser produtiva de verdade, tá? Não quero.

Vou falar de outra obviedade que acho mais importante: você não vai se tornar um monstro encostado e preguiçoso se reconhecer sua necessidade de parar. Juro. Considero óbvio, mas, é bem verdade, a gente esquece sempre disso.

Tem uma coisa que virou uma espécie de mantra pessoal recentemente, e eu compartilho com quem puder: gentileza.

E se tratar com gentileza, apesar do que nos foi ensinado, não se resume a auto indulgência e irresponsabilidade. Ser gentil consigo mesma não vai destruir todas as suas chances de sucesso – na verdade, é bem o contrário, ela é exatamente o que pode te ajudar.

Eu seeeei que dizendo assim não parece verdade. Não condiz com o que vemos no ambiente, mas, convenhamos, eu acho que o ambiente é meio disfuncional. Você não acha, não?

Ah, eu acho e acho que é óbvio (perdão aos que não acham). Mas eu também não vou falar dessas obviedades, como comentei, então vamos repetir coisas menos óbvias:

Parar faz parte.

Parar também é movimento. Ser gentil consigo mesma, na pior das hipóteses, vai te deixar mais forte para lidar com adversidades. E, em todas as outras hipóteses, vai te ajudar de inúmeras maneiras legais e surpreendentes.

Enquanto escrevo esse texto, uma música vem baixinha do quarto ao lado:

“Talvez ser poderoso seja ser frágil…”, o refrão diz. Adorei a coincidência.

Parar é estar vulnerável. Escolher a gentileza é reconhecer que, sim, somos frágeis às vezes. Pedir ajuda é se reconhecer frágil.

Conseguir lidar com tamanha fragilidade em si mesma e, ainda assim, seguir não parece a coisa mais poderosa do mundo?

Porque não dá pra ser forte o tempo todo e não dá pra “vencer” o tempo todo.

E a autoestima não pode existir só quando existe sucesso, quando há aprovação alheia. Porque é justamente quando essas coisas não estão como o planejado que precisamos mais dela.

Saber-se frágil significa que, se as coisas ficarem muito difíceis, muito horríveis mesmo, você tem algo com que contar.

Você saberá que pode parar, você vai estar cuidando de si mesma, ainda que seja escondida embaixo dos lençóis. Você vai ter a coragem de pedir ajuda, porque reconheceu seus limites.

Saber parar é um tipo de poder, sim.

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E eis uma coisa importante sobre parar: vai acontecer, independente da sua vontade.

Quero dizer, pode ser uma escolha, e é até melhor que seja, mas vai acontecer inevitavelmente. Quando você realmente precisa parar, não há força de vontade, droga lícita, ilícita ou palestrante motivacional que convença seu corpo e sua mente do contrário.

Pior ainda, quanto mais você lutar contra isso, mais difícil vai ser depois. A necessidade de parar vai te atingir, e você não vai entender o que aconteceu. Vai se sentir paralisada. Pode até ficar se culpando por isso, e provavelmente vai. Porque, já sabemos, ser gentil consigo mesma é o mesmo que falhar (não é, não).

sleeping_penguinPor isso, é preciso dizer que saber parar pede muita atenção e muita consciência de si. Mais do que isso, é preciso coragem pra olhar pra os seus limites, reconhecer que eles existem e estão bem ali próximos. Tomar consciência de toda angústia, tristeza, mal-estar ou sofrimento por que você pode estar passando. Admitir que, sim, a fragilidade existe. E aí parar conscientemente.

Mas quando a gente quer fazer isso? Nunquinha. A gente acredita que o certo é agir, resolver, passar por cima, dar um tchau pra os problemas e pra o cansaço e seguir.

E o resultado dessa insistência não costuma ser muito legal.

Como comecei contando a vocês lá em cima, eu parei. E foi horrível. Porque não foi de forma consciente ou planejada. Foi de forma inevitável, desanimadora, irritante e incapacitante, do tipo parece-que-passou-um-trem-por-cima-de-mim.

Eu não conseguia trabalhar direito ou sair ou mesmo fazer coisas básicas, como conversar e preparar o almoço. Claro, eu tentava fazer todas essas coisas, mas não sem mal estar.

Coisas simples e casuais acabaram se tornando fontes de enorme pressão. Eu queria só evitar tudo. Estava exausta e irritada, de verdade.

E, claro, estava me sentindo o quê mesmo? Um fracasso completo.

Quem sou eu pra falar de autocuidado quando só quero ficar em casa, escondida no quarto, lendo livros de qualidade duvidosa? Quando estou chorando ou me exasperando por qualquer coisa? Quando, na verdade, estou inapta para a convivência em sociedade?

Porque eu estava mesmo, e não queria que ninguém soubesse.

Bobagem.
il_340x270-791950921_djleAgora entendo, é justamente falando sobre isso que ajudo outras pessoas a fazerem o mesmo.

Quando me permito sentir e parar, dou espaço para que você faça isso também. Aceitar a vulnerabilidade é também um ato de gentileza. Talvez, ser poderosa seja ser frágil.

Não desejo que, quando você estiver se sentindo cansada ou sofrendo, acredite que tem algo de errado com você.

Não me venha com “isso não pode acontecer, é tudo culpa minha!”, como se todas as pessoas do mundo fossem funcionais e você fosse a única problemática.

Quanto mais enxergar a situação assim, mais difícil será escolher descansar ou pedir ajuda.

Você consegue imaginar uma vida inteira sem errar, se sentir mal, parar, reavaliar, desistir, repensar, bagunçar e depois tentar consertar tudo? Claro que não.

Se você sentir que tem algo de errado acontecendo, é porque provavelmente tem. E a culpa não é sua.

Então, parar foi bom pra mim também, claro. Não só porque eu precisava, mas também porque aí percebi a importância da vulnerabilidade e a força da gentileza na prática.

Não pense que só acontece com você. Tente não se culpar, preste atenção no que está sentindo, pare para descansar, cuide de você e tente fazer só o que é possível.

No processo de parar, eu me decepcionei um pouco, decepcionei algumas pessoas e fiz algumas escolhas que normalmente não faria. Um pouco irresponsável, se visto de fora, mas, olhando daqui, era o que eu precisava. Descanso.

E, acredite, não só pessoas extremamente ocupadas precisam de intervalo e não precisa estar passando por situações especialmente difíceis pra se sentir cansada. Muitas vezes, o excesso de atividade é mental.

Como disse, somos humanos, cheios de defeitos, particularidades e incoerências. Isso acontece.

Às vezes, simplesmente não é possível seguir.

Quando isso acontecer, seja egoísta – descanse, absorva toda a energia, seja água ou comida ou inspiração, não gaste nada. Você precisa. Brinque, porque brincar é importantíssimo.

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Não tente voltar imediatamente ao modelo de ser humano “produtivo e eficiente”, porque ele não estará te servindo nesse momento. Sua produtividade e seu trabalho neste momento estão justamente em se poupar e descansar.  Sim, você estará sendo produtiva mesmo nessa hora.

Também não precisa ficar com medo de nunca mais voltar a fazer as coisas que você “deveria estar fazendo…”. Isso não vai acontecer.

Digo, talvez você reveja algumas dessas coisas. Talvez prioridades mudem. Parar é bom porque nos dá tempo para pensar. Mas a gente sabe o quer fazer e sabe também o que precisa fazer. E tudo será feito, cada coisa a seu tempo.

Não precisa sair correndo, pare e siga no seu próprio ritmo, num que seja confortável pra você. Não se obrigue a reproduzir uma versão de quem você era, apenas cuide de si mesma até que quem você É agora apareça aos poucos.

Isso é cura. E a espera vale a pena.

Então é isso, vamos tentar lembrar de parar um pouco.

Falar é fácil, eu sei, mas é um exercício. Tô com vocês e estamos todas aprendendo.

TCHAU
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