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Tirar o lixo e mudar o mundo

As coisas não tem andado boas paras mulheres ultimamente. Ou, sei lá, nos últimos séculos. E as coisas também não têm andado boas na política e para o meio ambiente. Aliás, vocês também estão com a impressão de que nós estamos mais violentos no geral? Ou que continuamos tão violentos quanto sempre, mas agora ficamos sabendo disso. Enfim, a sensação mais presente nos últimos tempos é que as coisas poderiam estar muito, muito, muito melhores.
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E sim, eu sei que falo isso de um lugar privilegiado. Da minha privilegiada posição socioeconômica, com meu privilegiado computador, eu digito privilegiadamente este texto, o qual vou divulgar através da minha privilegiada conexão com a internet para que outras pessoas, imagino que também privilegiadas, leiam e… enfim. Se com todos esses privilégios, eu consigo ver que as coisas não andam boas, então imagina só como elas realmente estão.

Além de toda essa confusão externa, ainda temos que arranjar um tempinho para lidar com todas as nossas crises internas, os anseios, a sensação de não sermos bons o bastante, o medo da morte. Olha que curioso: o número que aparece na balança não parece pertencer a esse grupo, né? Nem o tamanho da calça ou as calorias daquele prato ou as celulites na minha coxa… mas divago, vamos deixar isso pra depois. O que quero dizer é: é muita confusão, muita coisa. Muita coisa nas nossas mentes já bagunçadas de informação, estímulos e vídeos de gatinhos. Não tá fácil, eu sei.

Num outro dia, escrevi assim pra uma amiga: “Eu estou bem de um jeito egoísta, enquanto tudo dói de um jeito não-egoísta. E fazer essa separação tem sido o único jeito de me sentir bem no momento”. O que eu quis contar a ela é que, agora, tem coisas externas acontecendo com as quais eu não consigo lidar muito bem, e sinto que preciso alternar o foco constantemente, escolhendo pensar mais em mim, mais nas minhas questões, olhar de forma mais limitada para fora. É egoísta de certa forma, eu reconheci. E juro que, nem por um momento, acho boa ideia virar as costas para as demandas que vemos no mundo, eu juro que penso constantemente sobre o que posso e o que podemos fazer para melhorar as coisas, quais são as iniciativas que estão ao nosso alcance, e tento ser realista sobre as perdas e mudanças que esse caminho envolve.

Mas, como eu já disse num texto anterior, o mundo também é feito de pessoas, e é preciso que estejamos bem para que ela seja bom. Será que vocês partilham dessa minha percepção?

Ponte da Sumaré, São Paulo, SP. Foto enviada por @jabbakarin Arte de @lauguimaraes via Instagram.

Eu acredito sinceramente nisso. Lembro de umas discussões antigas que eu tinha com um amigo, em que ele se mostrava tão desesperançoso com o mundo, que não via saída, que sequer via sentido em fazer algo de bom por si, já que há milhares de milhões sofrendo por aí. Enquanto entendia o sentimento dele, minha posição sempre foi a exata inversa: é justamente pelo fato de o mundo ser um lugar tão complicado que precisamos estar bem. Se o cenário realmente incomoda tanto, se a vontade é de que as coisas mudem e melhorem, então nós, que temos essa oportunidade de fazer a mudança, precisamos estar bem. Estar bem é um privilégio? Talvez. E talvez realmente seja puramente egoísta não reconhecer isso.

Mas eu quero reconhecer, e quero que este estar bem seja um meio para deixar mais gente bem também.

Por isso, e por acreditar que coisas simples podem fazer muito bem, eu vim escrever esse texto. E aí, finalmente, chego naquele clichezão inevitável que é valorizar o prazer das pequenas coisas. Digo, não sei se é inevitável para todo mundo, mas eu tenho o incômodo hábito de pensar constantemente em questões existenciais, e sempre caio no mesmo (óbvio) lugar, que é essa ideia de aproveitar os pequenos momentos da vida. Porque, filosofia e religião e crenças em geral à parte, a gente não sabe bem por que tá por aqui. E não sabe muito bem até quando vai ficar por aqui. E, sejamos sinceros, o famoso meteoro pode chegar a qualquer momento e daí não estaremos mais, então…

Desculpa, eu não quis parecer assim tão pessimista.

Vou colocar de outra maneira: a vida é uma coisa meio incerta. E o nosso planeta, que é onde está essa nossa vida, anda bastante complicado, por nós e para nós. Então, por que não tentar descomplicar um pouquinho? Não de um jeito totalmente egoísta e irresponsável, mas de um jeito bem intencionado e só um pouquinho de nada egoísta. Porque parece necessário. Porque é o jeito de seguir.palido_ponto_azulPronto, assim parece bem melhor.

Então, voltando ao clichê, acho sinceramente que uma maneira eficaz de conseguir bem-estar é através das pequenas coisas que nos trazem alegria e dão prazer. Podem ser os menores e mínimos detalhes. Sabe que eu tive a ideia pra esse texto conversando sobre areia perfumada para gatos fazerem as suas necessidades fisiológicas? Pois é. Coisas pequenas assim. E a reflexão não tinha a ver exatamente com gatos luxuosos, mas com a pessoa, que estava me contando como utilizar a areia perfumada na caixa dos gatos melhorava a experiência de recolher o lixo. Porque tinha um perfuminho. No lixo.

Não finjam que vocês não sabem do que estou falando! É sobre a sensação de deitar em lençóis limpos ou comer aquele docinho depois do almoço. Vocês sabem, sim. Aposto que conseguem fazer uma lista própria com as coisas que te deixam felizes. Quanto mais bobas e mais cheias de clichê, melhor. Coisas no nível O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Uau, agora vocês entenderam exatamente aonde quero chegar.

Quantas dessas coisas estão ao nosso alcance e não aproveitamos? Às vezes, eu sou a rainha no quesito me privar de pequenos prazeres, é um horror. Evito parar pra ler um livro de que gosto porque acho que ainda não fiz tudo que tinha a fazer; evito falar com pessoas de quem estou com saudades por medo de incomodar, evito usar as minhas roupas favoritas – Para quê, não gastar? Não me pergunte, eu nem saberia explicar direito.
Mas confesso que, por vezes, me saio muito mal nessa coisa de aproveitar os momentos e os pequenos prazeres.

Sabe o que mais entra nessa lista de escolhas provavelmente desnecessárias? Não comer aquele brigadeiro que te ofereceram porque você “não pode”, não dançar na festa porque tem medo do que vão achar, não usar aquela roupa que você amou porque… Por que mesmo?

Bom, não importa, a minha resposta pra tudo isso é… meteoro! Mentira, desculpem. Eu não vou fazer mais. A resposta pra tudo isso é que não temos certezas. E que o mundo está complicado.

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A Terra está aí há uns 4,5 bilhões de anos. E nós aparecemos por aqui só há 200 mil anos. Toda a existência humana nada mais é que é um estalo, assim, um flash, um brevíssimo acontecimento na história desse planeta. Nosso conhecimento abrange desde incontáveis galáxias até o fundo dos oceanos com os peixes abissais e sua bioluminescência, mas a gente não usa a louça bonita no dia a dia, porque a louça bonita é para “ocasiões especiais”.

Como é que conseguimos complicar tudo tanto e em tão pouco tempo? Que vergonha, que vergonha.

Acho que a gente tem a mania de olhar só pra essas ditas ocasiões especiais, as conquistas e prazeres e alegrias que consideramos “importantes”. Acontecimentos como uma super viagem ou o dia do casamento ou conseguir o emprego dos sonhos e coisas assim. Mas nossa vida é um estalo. E, sejamos sinceros, a gente vai tirar o lixo muitas, muitas e muitas mais vezes do que viajar pelo mundo. Pelo menos, a maioria das pessoas. E com certeza vamos escovar os dentes uma enormidade de vezes mais do que fazer uma festa de casamento, então, por que não fazer isso ouvindo música?

Isso porque eu não vou comentar o que acho que a estrutura econômica e os modelos de emprego atuais fazem com nosso tempo ou como precisamos pensar sobre a atenção real que destinamos às pessoas que amamos, já que não quero transformar isso aqui em um monte de reclamações e tagarelice sem sentido. Mas vamos pensar nas pequenas coisas!

Cada dia mais, vejo como real e importante essa coisa de valorizar o momento e estar presente. É tudo que a gente tem, afinal. Vamos tentar ficar mais presentes.

Já que teremos que lidar com toda a dificuldade de fora e com a, mais difícil ainda, bagunça de dentro, vamos primeiro tentar deixar essa tarefa toda um pouquinho mais agradável. E, já que teremos um monte de afazeres e obrigações e ossos do ofício de ser humano nessa sociedade que criamos enquanto tentamos fazer tudo isso, vamos pensar em todas as boas e pequenas coisas que podem aumentar o nosso bem-estar.

Chore. Fique com raiva. Sofra, até perca as esperanças e tenha vontade de desistir. Mas não desista, sim? Cuide de você.
tumblr_nf8xbhOc3s1ql734to1_1280Tristeza é importante e alegria é importante também. Não vamos usar essa ideia que trago aqui pra maquiar o mundo, mas pra seguir.  A gente sempre pensa em reduzir o desconforto – evitar o noticiário, fumar um cigarro, tomar o analgésico -, mas quando é que focamos em acrescentar mais alegria e mais beleza? O sofrimento existe. E eu sei que, muitas vezes, as coisas que tentamos fazer para que ele diminua só contribuem para o seu aumento. Vamos tentar outro caminho?

E, importante comentar, tentar acreditar que é possível fazer isso não apesar de todos os problemas, mas justamente por causa deles. Para continuar e enfrentar. Como li recentemente numa crônica, trivialidade também é resistência.

Coma o brigadeiro. Mande a mensagem. Escolha o papel higiênico fofinho. Ouça mais música.

Sim, é uma visão privilegiada e relativamente egoísta, mas acho necessária. Ela me ajuda. E acho que pode ajudar mais gente, e também ajudar mais gente a ajudar mais gente.

Quando estamos bem, é mais fácil olhar para o lado e ter mais empatia. E, eu juro, é um jeito de amar mais.

Será que, um dia, vou conseguir contribuir para mudanças no mundo? Não sei, mas espero, de verdade, que sim. O que eu sei com toda certeza é que vou tirar o lixo amanhã e depois e depois e depois…

O que você pode fazer pra sentir mais alegria e prazer nas pequenas coisas?

Imagens: Reprodução Google