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Por que você não consegue emagrecer?

Tá aí um ótimo tema para conversarmos, né? Por que é que você não emagrece?!

Aliás, vamos voltar um pouco, o que te fez engordar em primeiro lugar? Sinceramente, não dava pra não ter engordado? E, agora que o “problema” já está aí, porque é mesmo que você não consegue emagrecer?

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Detalhe de Hilda, Duane Bryers.

Bom, vamos lá… Para essas perguntas todas, a resposta que sugiro é: por um bilhão de razões!

E olha que eu tô pensando mais nos aspectos físicos e bioquímicos da coisa. Fiz um cálculo rápido aqui e, pode acreditar, pelo menos um bilhão de razões contribuem pra isso. Sendo que, destas, eu não conheço nem 1%.

E sabe quem mais não conhece? Cientistas. Estudiosos. Pessoas que dedicam a vida a descobrir por que é que engordamos e por que não emagrecemos, que estudam as causas da obesidade e também todos os aspectos envolvidos na regulação do nosso peso. Ok, acredito que eles sabem mais do que eu sobre esses assuntos, reconheço, mas a realidade é que grande parte dos mecanismos que regulam a gordura corporal permanecem mesmo um mistério.

Então, seria totalmente aceitável responder o seguinte para o próximo indivíduo que te perguntar por que você não emagrece:

“EU NÃO SEI! Ninguém sabe direito ainda. Mas eu te conto assim que descobrirem, pode ficar tranquilo, tá? E agora vai cuidar da sua vida um pouquinho.”

Como de costume, estou generalizando e exagerando, mas vocês entendem, né? Essa coisa da cobrança sobre o peso é muito incômoda, e aqui quero falar sobre como isso é problemático por muitas outras razões que não são os padrões de beleza.

Porque sim, eu sei que tem mulheres que não emagrecem porque não querem e não estão nem tentando, e tudo bem! Mas também sei que há algumas que, mesmo se amando, querem emagrecer; outras que realmente precisam emagrecer por questões de saúde, e sei que as pressões sociais permanecem intensas e insistentes na busca de um corpo magro. Então é verdade que emagrecer ainda é uma questão na vida de muitas por aí, por isso mesmo que acho importante trazer algumas das informações que coloquei nesse texto de hoje.
tumblr_n1bvc4Cd151rlysq6o4_r3_1280E tem muita coisa pra ser dita, de verdade, mas a principal é: não é culpa sua. Não conseguir emagrecer não é culpa sua. Não é algo que está totalmente sob o seu controle, não é uma coisa simples nem fácil e não depende apenas da sua (força de) vontade. Como falei antes, existem mesmo várias razões para que isso seja difícil, então calma.

Vamos começar falando um pouquinho sobre onde estamos errando nessa história de emagrecimento? Pensem comigo…

Quando diminuímos carboidratos ou gorduras ou calorias da nossa alimentação, é comum que ocorra perda de peso. Concordam? Certo. E é sobre isso que as dietas são: sobre reduzir, cortar e evitar coisas. Mas esse resultado de perda de peso com a dieta nos engana, porque faz com que a gente assuma como verdadeira uma lógica que é falha. Vou dar um exemplo, vejam essa afirmação:

“Reduzir carboidratos emagrece, então a causa da gordura era excesso de carboidratos.”

Que mulher nunca ouviu um “fecha a boca que emagrece!” ou “é só cortar massas e doces”? Pois é.

É assim que pensamos e, inevitavelmente, acabamos elegendo vilões na comida, demonizando alguns componentes, criando medo de comer. Acontece que afirmar isso é quase o mesmo que dizer algo como:

“O trabalho dos bombeiros acaba com o incêndio, então a causa do incêndio era falta de bombeiros.” (?!)

Não! A causa do incêndio pode ter sido uma vela esquecida ou problemas elétricos, por exemplo, mas definitivamente não era falta de bombeiros no local. Da mesma maneira, as causas do excesso de gordura são inúmeras, e não podem ser resumidas àquela história de carboidratos (ou calorias ou gorduras) em excesso e sedentarismo.

Veja bem, eu não estou dizendo que uma alimentação pouco equilibrada e a falta de atividade física não contribuem em nada para o aumento de peso e gordura corporal, não é isso! Já é bem sabido que o aumento do sobrepeso e da obesidade no ocidente tem relação com o maior consumo de refinados e industrializados, e também com o aumento do sedentarismo. O que eu quero dizer é que esses não são os únicos fatores envolvidos e que, para muitas pessoas, eles nem fazem diferença no peso ou composição corporal, como a gente bem sabe. Ter correlação com um resultado não é o mesmo que causar o resultado.

Por que você me odeia?
Por que você me odeia?

Então, não é porque uma dieta pobre em carboidratos leva a perda de peso em alguns casos, por exemplo, que devemos enxergar os carboidratos como vilões. E daí enxergar a pessoa que não emagrece como irresponsável comilona ou como preguiçosa sem força de vontade. Essa associação está errada e causa um enorme mal estar em quem está tentando emagrecer, porque leva a crer que essas pessoas estão completamente no controle do processo de emagrecimento e que, se ele não aconteceu, só pode ser por culpa delas. Falso!

O ganho de peso e, principalmente, a obesidade são efeitos decorrentes de muitos, muitos elementos (Bilhões deles? Talvez).

Pode ser por algum problema metabólico, como resistência a insulina, por exemplo. Pode ser que você enfrente questões emocionais que tornam esse processo de emagrecimento muito complicado e, quem sabe, até impossível no momento. Talvez você esteja muito sobrecarregada com outras coisas e não disponha de tempo ou energia para investir nisso agora. Pode ser que, depois de tanto tempo sendo maltratado por restrições e culpa, seu organismo precise de descanso até voltar a seu peso natural. Pode ser que perder peso seja difícil porque dietas não funcionam a longo prazo, e você tem insistido nelas. Pode ser estresse, podem ser toxinas e também muitas outras condições genéticas, metabólicas e psicológicas.

Enfim, eu não vou tentar citar todos os fatores de todos os tipos que influenciam no peso, porque realmente não vai ser possível – e eles se acumulam e interagem entre si, imagine o resultado! -, mas quero comentar aqui sobre uma questão biológica que é esquecida muitas vezes:

Pode ser que você não emagreça porque seu corpo tem um “registro” da quantidade de gordura corporal que você deve ter em determinadas condições. Seu peso, assim como sua temperatura, respeita um intervalo que já está definido no seu cérebro, mais especificamente, no hipotálamo. Então, ainda que você coma normalmente e mantenha um estilo de vida saudável no geral, pode ser que não emagreça. Assim como tem pessoas que são sedentárias, consumem álcool e açúcar com frequência, mas mesmo assim não engordam. Então, mesmo esquecendo todos os fatores externos ligados ao peso e gordura corporal, precisamos lembrar que ainda existem elementos internos que também controlam esses aspectos.

Em algumas pessoas, o “registro” de peso é mais elevado, e o natural para elas é ter um maior peso e maior gordura corporal. Em outras, ele é reduzido, e, nesse caso, é mais fácil permanecer mais magro. No caso da obesidade, que é o maior desafio nos estudos sobre esse tema, o “registro” de quanto deve ser a gordura corporal está exageradamente alto, e isso se relaciona com diversos outros indicadores de saúde, já que ela é uma condição multifatorial muito complexa e não se resume a peso.

A restrição das dietas é capaz de mexer com esse “registro”, porque interfere diretamente nos nossos centros cerebrais de saciedade e recompensa, que são as áreas que o controlam. O que quero dizer: reduzir a quantidade de calorias, gorduras ou carboidratos da alimentação é uma maneira normalmente eficaz de diminuir o “registro” de quanto deve ser o nosso peso, e aí fica mais fácil emagrecer.

Mas saiba que dietas não resolvem a causa do problema, só remediam parcialmente a situação – elas são temporárias, são os bombeiros que vêm apagar o fogo, sabe? Mas não solucionam, porque não foi a alimentação sozinha que causou o incêndio. Digo, que definiu seu peso. Não podemos esquecer de toooodos aqueles outros fatores.

scale2E as restrições da dieta não são mantidas para sempre! O nosso corpo não é bobo, então, assim que voltamos a ter uma alimentação normal, o “registro” sobe novamente, e o peso volta aos seus valores iniciais. E é por isso que é tão comum recuperar o peso e a gordura perdidos tão logo essas restrições desaparecem!

Vocês gostaram dessas explicações? Eu adorei. Mas, convenhamos, também são explicações incômodas, porque mostram que emagrecer é muito mais complicado do que dizem. E, realmente, os cientistas continuam buscando formas eficazes de reduzir esse “registro” de peso, principalmente porque querem tratar a obesidade, mas essa busca não tem sido fácil. O nosso cérebro é bastante teimoso sobre esses valores.

E por que eu estou dizendo tudo isso, por acaso quero desanimar vocês? Não mesmo! De verdade, não gostaria que essas informações fossem encaradas de forma negativa. Para mim, sabe o que elas querem dizer? Não é culpa sua.

Ainda que você coma de forma saudável, se exercite e mantenha bons hábitos em geral, pode continuar bem difícil emagrecer. Não precisa se culpar e se odiar porque nos fazem acreditar que estar fora do padrão é horrível e porque a febre fitness fez parecer que só é gorda quem quer! Nada disso é verdade.

Gordura não é um atestado de fracasso, não é falta de força de vontade, não define quem você é. Nossos padrões estão todos bagunçados, nossa visão de saúde anda meio torta e temos nos maltratado demais. Precisamos parar de acreditar que podemos moldar o nosso corpo da maneira que bem entendermos, porque existem bilhões (!) de razões que interferem nesse processo, e a maioria delas sequer está sob nosso controle.

E, como eu realmente não quero ninguém correndo atrás de dietas restritivas, repito que esse método tem muitos efeitos negativos.

“Antes de fazer dieta, eu não me preocupava tanto com comida, só comia.”
“Ah, antes de fazer dieta, eu comia normalmente e não engordava!”
“Antes de fazer dieta, meu peso era bem menor do que o que eu tenho agora. Pra que eu fui inventar isso?!”

Conhece alguma dessas frases? A dieta é um método temporário, depende de restrições, bagunça nossos sinais internos de fome e saciedade, prejudica a nossa saúde mental, é cheio de regras e culpa e pode resultar num ganho de peso ainda maior posteriormente. Não temos interesse nela, ok? Ok.

Por outro lado, já sabemos que algo que ajuda o “registro” de peso a manter seus valores naturais é reduzir a inflamação do organismo.

E sabe o que ajuda a reduzir inflamação do organismo? Bons hábitos de vida.

Ter uma alimentação balanceada e livre de restrições e paranoias, manter-se ativo, dormir bem, evitar toxinas, se divertir, cuidar da sua mente… Nada de novo, né? Então, uma boa estratégia para mantermos boa saúde geral, incluindo um peso saudável, é ter bons hábitos de vida.

O importante é ter em mente que um “peso saudável” não é sinônimo de 3%-de-gordura-corporal-barriga-de-musa-fitness, mas um peso adequado para você, sua genética e seu estilo de vida.
tumblr_mfvdt1ux3K1qbnizio1_1280Sei que é uma conclusão meio chata, mas parece que é verdade.

Então, pode ser que o seu corpo seja maior, menor ou igual ao padrão; pode ser que, depois de manter-se num estilo de vida saudável para você, acabe emagrecendo ou engordando ou não mudando nadinha – só o tempo e a consistência dos hábitos que escolheu irá dizer.

E o que isso tudo significa é que somos diferentemente adaptados, temos informação genética particular e respondemos de forma específica e única a todas essas informações que o nosso corpo carrega e com que interage.

A menos que você tenha uma condição metabólica que te leve à obesidade e que ameace o seu bem estar, não é nada interessante implicar com o seu “registro” natural de peso, porque isso pode trazer consequências muito complicadas no futuro – por isso, precisamos analisar com cuidado cada caso e evitar a todo custo essa obsessão pela magreza!

E eu não estou dizendo que é impossível emagrecer, claro. Existem diversas estratégias para isso, que são estudadas e aprimoradas todos os dias, e profissionais que se dedicam a te orientar de uma forma saudável durante essas mudanças. Só queria contar um pouco sobre os bilhões (!) de fatores que estão envolvidos no processo e te mostrar que não é algo tão simples quanto a indústria das dietas e a mídia fitness tentam fazer parecer.

Nós não somos máquinas, certo? Somos seres vivos que se alimentam, andam, respiram, amam, ficam tristes e precisam pagar as contas do mês. Somos influenciados por uma enormidade de fatores genéticos e ambientais, e não podemos exigir que todos os corpos funcionem de acordo com alguma lógica restritiva, como robôs. Precisamos pensar nisso de uma forma mais complexa, individual e completa, que é justamente como nós funcionamos.
tumblr_l4szwy7U1U1qbtkr8o1_500Tudo bem se sentir bem como está agora. E tudo bem querer mudar. Mas acho muito melhor que tudo seja feito de forma consciente, realista e sem se machucar. Mais uma vez, a minha sugestão é que você, ao invés de focar no seu peso ou na gordura do seu corpo, foque nos seus hábitos.

Reveja suas motivações, tente aprender a gostar de si mesma, escolha se cuidar independente de qualquer coisa. Busque fazer tudo isso de forma gentil, paciente e sustentável, porque é assim que o aprendizado acontece.

E, se você realmente precisar emagrecer por uma ou outra razão, se informe e procure ajuda de um profissional em que você confie, que possa te orientar adequadamente e te ajudar neste caminho. Assim, você ganha mais liberdade e conhecimento para escolher o que e como fazer. 🙂

Imagens: Reprodução Google Images.

E aqui estão alguns links que complementam o que falei e mostram que eu não inventei nada do que está aí em cima:

http://www.nytimes.com/2016/05/02/health/biggest-loser-weight-loss.html

http://www.slate.com/articles/health_and_science/medical_examiner/2015/03/diets_do_not_work_the_thin_evidence_that_losing_weight_makes_you_healthier.html

http://www.chriskresser.com/why-its-so-hard-to-lose-weight-and-keep-it-off

http://www.youreatopia.com/blog/2015/1/21/obesity-science-in-context.html

http://wholehealthsource.blogspot.com.br/2015/08/a-new-human-trial-seriously-undermines.html

http://wholehealthsource.blogspot.com.br/2014/06/fat-and-carbohydrate-clarifications-and.html

https://www.youtube.com/watch?v=Mp2p4TdLn_8&feature=youtu.be

http://wholehealthsource.blogspot.com.br/2014/02/mysteries-of-energy-balance-and-weight.html

http://wholehealthsource.blogspot.com.br/2013/05/the-neurobiology-of-obesity-epidemic.html

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22238401

http://press.endocrine.org/doi/abs/10.1210/jc.2011-2525

http://wholehealthsource.blogspot.com.br/2013/07/the-genetics-of-obesity-part-iii.html