P*rra, eu sou linda!

Posted on Posted in A relação mente-corpo, Cuidados com a Saúde, Estilo de Vida

Aposto que assustei vocês com o título do post!

Especialistas dizem que é bom dar um sustinho de leve no leitor, só pra aumentar a curiosidade. É meio que uma técnica secreta de ninjas escritores de blog ou coisa assim, sei lá. Eu não conheço muitas técnicas.

Mas esse aí assustou, eu sei! O mais engraçado é que ele não veio de uma master técnica secreta, mas de uma frase que eu falei mesmo. Aconteceu assim: eu estava conversado com a minha irmã, discutindo sobre o que achávamos do estilo e roupas de uma modelo, e eu comentei que ela ficava bem em todas as roupas, tinha um cabelo deslumbrante, um rosto marcante, e que eu queria tudo isso também. Afinal, a gente costuma ser programada pra sempre querer, né?

“Mas p*rra, eu sou linda!”, comentei logo em seguida. Minha irmã riu. Seguimos a conversa sem nos dar conta de que o equilíbrio do universo como conhecemos deve ter tremido um pouco depois dessa afirmação.
tumblr_nnbq1arUc21rdfhxdo1_540Desde quando uma mulher pode reconhecer assim, com naturalidade, o quanto é linda? E, pior, sem acrescentar defeitos. Sem revisar mentalmente onde poderia melhorar a aparência. Sem pedir desculpas. Sem pensar duas vezes no assunto e sem voltar atrás. Apenas, de forma sincera, admitir que gosta, sim, da aparência que tem. Desde quando?

Não se enganem, isso não é algo que faço com frequência, infelizmente. E, durante muito tempo, era algo que sequer passava pela minha cabeça, que parecia impossível. Afinal, mulheres têm que querer ser bonitas, tentarem ser bonitas, viverem para ser bonitas. Mas, claro, é preciso também nunca conseguir isso. E nunca, em nenhuma hipótese, acreditar que conseguiram. A nossa missão é dedicar a vida a alcançar uma determinada aparência, dita aceitável e correta, mas não deixar ninguém saber, pois não podemos ser fúteis – não, que horror!. Também nunca acreditar que chegamos a essa aparência, não temos esse direito. A regra é a insatisfação.

beautyredfined1-721x1024Imaginem, então, gostar da própria aparência mesmo que ela esteja fora dos padrões. LOUCURA! Subversão é ser gorda e andar com a barriga à mostra. É ser negra e ostentar seus cabelos naturais. É não ter vergonha do próprio corpo. Fomos tão proibidas, presas e reprimidas que, agora, ter amor próprio é que é a revolução. A nossa aparência é a ofensa maior, gostar de nós mesmas é o ato de rebeldia. E eu digo a vocês: que fase, amigas, que fase.

Embora pareça triste que precisemos sofrer por coisas que parecem tão básicas, é a realidade. Eu tenho, e sei que vocês tem também, muitos outros anseios e objetivos. Queremos pensar no mundo todo, e não só na nossa aparência. Queremos nos concentrar nos nossos sonhos, encontrar um caminho, produzir coisas maravilhosas, sentir que faz sentido, olhar ao redor. É uma fala minha e é uma fala de muitas outras: nós somos muito mais do que apenas a nossa imagem.

Então, pode parecer um contrassenso focarmos nossos esforços na luta pela liberdade dos nossos corpos. “Há tanto mais a se fazer”, podemos pensar. Hoje mesmo vi alguém comentar que era uma grande perda de tempo nossa busca por mais diversidade na mídia, pois “há tantas outras coisas mais importantes com que se preocupar”. Mas será mesmo que essa é uma luta assim tão supérflua?

A minha resposta para esses pensamentos é: na sua vida, não tem nada mais importante que você. Sim! Pode pensar em si mesma primeiro. E eu sei que parece errado dizer isso. Parece egoísmo, e pode até ser mesmo, mas é necessário. Como você vai conseguir mudar o mundo, se estiver se sentindo mal demais consigo? Por que razão alguém que acredita que não vale nada pensaria que suas ações valem alguma coisa? Como pode alguma coisa melhorar enquanto as meninas ainda estiverem crescendo tristes, doentes, transtornadas?

As imagens de mulheres que vemos por aí, sem dobras, marcas, rugas, celulites, cicatrizes ou qualquer outro tipo de imperfeição são manipuladas para deixar bem claro o que você deve buscar. São pensadas para gerar mais insatisfação, mais prisão,  mais consumo, mais lucro. E, justamente por terem essa função, também são cuidadosamente criadas para serem inalcançáveis. Nesse contexto em que vivemos, focar na beleza que dói e que exige é contribuir para um sistema opressor. Mas lutar pelo direito de ser como você é, e de ver beleza nisso, é um ato de força, é um ato de resistência, é uma resposta social, cultural, espiritual e política. Nós fazemos o mundo, e é importante que estejamos bem para que ele seja bom.
tumblr_n8apya0KJy1sjf3bqo1_1280Eu nunca tive muitas fotos minhas. Há períodos inteiros da minha vida -cof adolescência cof cof – com registros contados nos dedos. Também não olhava muito no espelho e evitava pensar sobre como era minha imagem. Nos bastidores da mente, estava focando todos os esforços em mudar e ser diferente, sem sequer prestar atenção em como eu era. Motivada pela necessidade de aceitação, eu estava rejeitando um corpo que nem cheguei a conhecer direito. O meu corpo. Quão triste é isso?

Nesse jogo de apagar quem somos, enquanto nos expomos repetidamente a imagens de como deveríamos ser, acabamos esquecendo o que é natural. Nossa visão de “normal” é substituída por corpos padronizados e modificados – é uma naturalização do que é anormal, alterado, é a naturalização do quanto somos inadequadas. Tudo isso que aprendemos e temos internalizado como padrão do que é bonito e adequado é falso, inventado. Passamos, então, a considerar essas imagens fabricadas não só como ideais de beleza, mas também de saúde; perdemos a referência do que é um corpo sem retoques e, junto com isso, perdemos também a chance de nos aceitar como somos.

Eu sei que muitas mulheres pensam que o ideal é se livrar dessa necessidade de nos sentir bonitas, abandonar totalmente a beleza como objetivo e nos concentrar em outras coisas. E eu entendo essa visão, sim, porque a obrigação da beleza é o que tem nos mantido sob controle, sempre necessitadas, nunca adequadas. É ela que nos adoece e limita o nosso valor. É a busca pela beleza antes de tudo que, muitas vezes, nos impede de pensar além. Como defendo que todas sejamos livres para desejar e buscar o que nos fizer bem, defendo que cada uma pode encarar a beleza da forma que achar mais adequada, claro. Mas eu também sei que, já há muito tempo, que a beleza é admirada e cultuada pelos seres humanos; nós adoramos o que é belo, ele nos traz prazer e satisfação, temos vontade de alcançá-lo. Além disso, tenho que repetir: o padrão de beleza é um mecanismo de controle, é uma ferramenta usada para nos causar mal estar e descontentamento. Em minha opinião, lutar contra ele é lutar contra a opressão e buscar mais autonomia e liberdade, sim!

Meu objetivo aqui não pode jamais ser o de estabelecer um ponto de vista definitivo ou me posicionar como a detentora da opinião mais correta, até porque o conteúdo que eu expresso é formado (e também limitado) unicamente pelas experiências que vivenciei e aprendizados que tive. Então é claro que cada uma de nós pode contribuir para essa questão, e a troca só traz ainda mais enriquecimento! Sendo assim, posso deixar as minhas impressões sobre o assunto, desejando que elas ajudem mais e mais pessoas a refletir e construir também ideias próprias.

Minha sugestão pra você é: faça um esforço consciente pra mudar isso, essa dependência de atingir os padrões. Desaprender também é trabalhoso, leva tempo, e a mídia não parece querer ajudar muito no momento, mas existe um caminho, sim. Busque fontes alternativas de textos e fotos sobre beleza – beleza sem dor, regras, correções, disfarces ou padrões pré-definidos. Tire selfies (sim, selfies!) só pra você mesma, olhe para as mulheres à volta com curiosidade, sem julgamentos. Se acostume com o seu corpo e com a sua imagem. A gente precisa ver e viver mais a diversidade, e isso é feito entrando em contato com ela. Precisamos ficar íntimas de nós mesmas, da nossa imagem, reaprender como uma mulher é, e não só acreditar em como dizem que ela deveria ser. Ensine à sua mente como é o seu corpo, com todas as particularidades e imperfeições que ele tem; acostume-se com a sua imagem. Ensine à sua mente que é possível e que é lindo ser diferente.

Não é fácil deixar de odiar o próprio corpo e passar a amá-lo assim, de repente. É um salto muito grande. Antes de amar o corpo, vamos pensar em conhecê-lo. Respeitá-lo. Esse sim é um primeiro passo valioso.

A partir daí, podemos cada vez mais ampliar e, por que não, também extrapolar o conceito de beleza. Podemos abandonar, enfim, o que existe agora e idealizar como gostaríamos que fosse, participar ativamente da construção do que achamos agradável, bonito, valioso em nós mesmas – sejam ou não detalhes de aparência. Um passo de cada vez, vamos mudando aos poucos, pois transformações como essa não acontecem da noite para o dia, né?

Ah, e também sugiro que comece a falar mais “porra, eu sou linda!”. Ok, não precisa xingar, você xinga se quiser. Eu acho que fica mais enfático. Mas fale, porque já passamos muito tempo nos colocando pra baixo.

E, se alguém vier reclamar com você sobre isso, pode dizer: não, eu não estou sendo fútil, estou mudando o mundo! 🙂

Mudando o mundo aqui rapidão.
Mudando o mundo aqui rapidão.

Aqui tem umas sugestões de coisas legais pra ler, ver, pensar mais sobre isso:

Padrões de beleza que adoecem
Depoimentos de partir o coração: vergonha do corpo
Stop hating your body (contém nudez)
Curve appeal (contém nudez)
Expose Project (contém nudez)
The Adipositivity Project (contém nudez)

Imagens: Reprodução Google Images