Você pode tudo, mas…

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Vocês sabem o que é um kettlebell? Pois bem. Eu não sabia até bem pouco tempo atrás, quando vi alguém falando maravilhas sobre ele. Treino rápido e eficiente. Divertido. Relativamente barato. Afina as pernas. Achei que parecia meio chato, mas quem se importa? Afina. as. pernas.
urlNossa, minhas pernas sempre foram um ponto meio frágil na minha relação com o meu corpo… Achava muito grossas, flácidas, estranhas, com celulite etc. Acho que vocês já conhecem essa conversa. Mas isso aí eu já superei, né? Poxa, falo tanto de amor próprio aqui. Tenho que ter superado, imagino que você pensa.

Não é verdade. Não sou perfeita nem melhor que qualquer uma de vocês, claro, e os conflitos com o corpo voltam pra me assombrar às vezes. Mesmo com amor próprio e autodescoberta e desconstrução e autoaceitação e sei lá mais o quê, não podemos esquecer que o contexto que nos cerca continua nos açoitando constantemente com ideais de perfeição, críticas maldosas, todo tipo de defeitos inventados e produtos melhoradores de qualquer coisa. Não podemos esquecer que, para a maioria, é o que nos foi ensinado. E, às vezes, a gente cede. Então, a depender do estado de espírito e do que vem acontecendo, todas essas críticas e pensamentos negativos me voltam à mente, sim.

Oi.
Oi.

E é aí que o kettlebell me chama a atenção, porque, gente, um treino que afina pernas! Não seria tudo o que eu quero? Finalmente alcançar a graça de ter pernas finas e bem torneadas, garantia indiscutível de que venci na vida (esse pensamento pertence ao meu cérebro meio bagunçado pelas exigências sociais, podem ignorar). Finalmente um treino que funciona de verdade!

Embalada pela visão do meu corpo apoiado nessas supostas futuras pernas melhores, comecei a imaginar como seria o meu dia a dia com o novo amigo e salvador, o kettlebell. Onde comprar? Quanto será que custa um? Qual escolher? Preciso de um(a) treinador(a)? Onde guardar? Que horas treinar? Quanto tempo até ver as mudanças?…

E aí, PÁ! Um pensamento me atingiu em cheio: eu provavelmente iria cansar de kettlebell, deixar pra lá. Poderia até treinar algumas vezes, talvez até com resultados nas tais pernas, mas já conseguia enxergar o kettlebell jogado lá num canto. Esse pensamento se baseia em algumas lembranças semelhantes, na verdade, de como eu cansei da academia e também de usar o elíptico que ficava em casa (e ocupava um espaço absurdo). Aliás, antes disso, eu já tinha cansado da academia outras vezes. Enjoei também de fazer exercícios ditos funcionais e teve uma vez que eu cansei até da yoga!

Quero que fique claro que não estou dizendo que nenhuma dessas atividades é ruim ou chata, tá bom? Mas eu me conheço, sei que não funcionam pra mim porque eu acabo achando bem entediante. Por que com o kettlebell seria diferente?

Ora, porque tem que ser diferente! Se funciona assim pra outra pessoa, tem que funcionar pra mim também. Eu preciso tomar jeito, exercitar minha força de vontade, ter mais disciplina. É esse o treino que dá “resultado”! Preciso fazer funcionar, certo?

Errado.

Às vezes, simplesmente não funciona mesmo. Porque eu sou eu, você é você e a moça que gosta do kettlebell é ela mesma. Apesar de essa ser uma ideia tão óbvia, constantemente deixamos de levá-la em conta. E não acontece só em relação a exercícios físicos, não! Quantas vezes você já viu pessoas querendo copiar a dieta de outras no Instagram? Ou perguntando o que fulana fez pra emagrecer tanto? Ou querendo saber o que alguém usou na pele pra ficar “tão boa”? Eu já vi inúmeras.
T-Rex-Hates-Kettlebell-SwingsPor que esquecemos que somos tão diferentes umas das outras? Pode ser que eu não goste de fazer a atividade que funcionou tão bem pra você, ou que meu organismo não aceite bem algum alimento que é dito saudável, e que alguém inclui na alimentação todos os dias.

A gente precisa parar de pensar que vai conseguir alcançar o corpo de outra pessoa comendo o que ela come e fazendo o que ela faz.

Não é como se existisse um caminho padrão composto de todas as atividades e escolhas eficazes, e fôssemos todas obrigadas a segui-lo. Não! Digo de novo: você é você, seu organismo é único. Da mesma forma, seu caminho é único também. Suas escolhas, únicas. Seus hábitos? Isso mesmo, já sabe. Se obrigar a seguir os passos que funcionam para os outros, mesmo sem querer ou gostar, pode até te trazer algum tipo de resultado, sim. Mas não vai te fazer se sentir satisfeita e disposta, não vai te dar prazer e, sendo assim, não será algo que vai te trazer um verdadeiro bem-estar.

Durante muito tempo, me forcei a seguir nesse jogo de imitação. Eu sabia exatamente o que comer para ter a barriga “seca”, que exercícios fazer para “definir” as pernas, sabia todos os detalhes da rotina de quem transformou o próprio corpo, copiava dicas e exercícios do Instagram, me inspirava em formas físicas absolutamente diferentes da minha, sonhava com o dia em que o meu “antes e depois” iria mostrar um “depois” que sequer pareceria comigo.

:(
🙁

Isso porque eu, em teoria, estava fazendo tudo certo. Tinha todos os passos anotados, seguia à risca o que tinha aprendido, colocava na minha rotina tudo que parecesse promissor, seguia no caminho pensando apenas no destino final. O único problema é que o caminho nunca foi o meu. E sabe o destino final, aquele com que sonhamos, onde tudo está no seu devido lugar e a vida é perfeita? Pois é, ele não existe.

Algumas pessoas podem pensar que seguir esse caminho emprestado e copiado funcionou pra mim. Eu mesma acreditei que estava funcionando, porque os resultados estavam ali. Comia coisas ditas saudáveis, praticava exercícios diariamente, tinha emagrecido. Estava ativa, as minhas pernas estavam mais finas, a barriga tinha diminuído. E eu estava… total e profundamente infeliz. Frustrada mesmo. Detestava cada refeição e cada minuto de esteira. Como é possível que isso estivesse certo?

Felizmente, abandonei todos os hábitos e atividades certos e comecei a procurar hábitos e atividades meus. Tento não acreditar mais na frase “nossa, isso aqui funciona!”, mas sim que certas coisas funcionam para certas pessoas. Você só precisa fazer algo se funcionar para você, e isso vai além de qualquer resultado objetivo. É preciso que funcione para a sua personalidade, sua rotina, para a sua realidade. É preciso que se encaixe bem na sua vida e que te traga prazer e bem-estar.

Eu cresci e passei boa parte da vida achando que detestava atividades físicas, porque não conseguia me dar bem com elas. Nunca fui amante de esportes – nunca fui nem amiga deles, verdade seja dita – e sempre tentei me forçar a gostar de alguma coisa, que sempre acabava abandonando. Hoje sei que, apesar de acreditar que elas estavam funcionando, nenhuma delas jamais funcionou.

Tchau, kettlebell!
Tchau, kettlebell!

Hoje, sei também que a atividade que funciona pra mim é aquela que eu faço com prazer e sem cobranças. Aquela que eu penso em fazer porque gosto, e não que faço só pra emagrecer ou mudar minha aparência. Sim, já aprendi que ela não vai afinar as minhas pernas de um jeito mágico, mas a verdade é que essa já não é mais uma preocupação constante, porque eu busco respeitar o meu corpo como ele é. Conheço também os alimentos que fazem bem ao meu organismo e à minha mente, sei qual é o meu ritmo, tenho prioridades mais claras e entendo melhor como funciono.

E, que fique claro, não quero que desista de experimentar coisas novas e diferentes! Muito pelo contrário, pois é preciso testar e descobrir para se conhecer. Pode até mesmo ser o kettlebell, se você simpatiza com ele. Aliás, se você quer mesmo tentar afinar as suas pernas, ou algo do tipo, vá em frente! O corpo é seu, você pode querer mudá-lo também, e eu não tenho nada a ver com isso. Acertos, erros, decisões e arrependimentos, tudo faz parte do aprendizado.

Mas, por favor, se não gostar ou se quiser abandonar alguma coisa, saiba que o problema não é com você. Não pense que te falta força de vontade ou disciplina. Não se culpe por ter desistido de algo que estava “funcionando”. Da mesma maneira, se tem algo que você gosta e que te faz bem, não abandone só porque não te deu o corpo que estava esperando. Procure respeitar sua genética, sua história, sua experiência, seu organismo.

Não transforme o seu caminho em uma busca por um resultado ideal inalcançável. Cada passo do caminho também conta, tem que te fazer bem. O caminho é a sua vida.

É preciso sair do automático e dedicar real atenção a você! Respeite o seu corpo e a sua individualidade, respeite quem você é. O que funciona de verdade é o que te faz se sentir bem por completo, é só o que funciona PRA VOCÊ. Não se esqueça: você pode tudo, mas nem tudo lhe serve. E tudo bem assim. 🙂