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Nada de “hoje pode”!

“Hoje pode!”

Essa frase, essa frase… Nossa, acho que ela vem me perseguindo. Você com certeza já leu ou escutou. Provavelmente já falou. Talvez nem ache nada estranho nela, quem sabe considere uma frase até simpática, uma frase de permissão, contra a dieta, uma frase libertadora.

Mas não é.

Essa frase é ruim, ruim, mas disfarçada de boazinha. Encontrada também nos formatos:

Domingo pode.
Fim de semana pode.
Nas férias pode.
Antes de malhar pode.
O dia foi ruim, hoje eu posso!
Amiga, você tá ótima, você pode!

Você entendeu a ideia, sabe bem do que estou falando. Ela aparece sempre que alguém está comendo algo “errado” ou “ruim” (clica aí pra também já deixar pra lá essa ideia, vai?), e tenta encontrar uma razão para se permitir este absurdo. Essa frase, infelizmente, está por toda parte. E eu sempre a detestei. Mesmo nas minhas épocas de dietas rígidas, quando eu restringia bastante a minha alimentação, e essa frase tinha o significado de uma bem vinda fuga disso, eu já detestava essas palavras.

Um pouquinho de "hoje pode" no Instagram.
Um pouquinho de “hoje pode” no Instagram.

Se a gente olhar bem de pertinho, o que ela quer dizer é:

“Você já se comportou direitinho durante este tempo todo, hoje pode sair dessa prisão horrível que é só comer seguindo regras e esquecer a própria fome, as próprias preferências e os próprios desejos. Mas seja rápida e aproveite antes que a restrição volte. Ah, e não se esqueça de postar a foto do seu crime e contar a todo mundo que você só se fez isso porque hoje podia. Tá bom? Seja boazinha.”

Tudo bem, talvez eu tenha generalizado e exagerado um pouquinho aí, mas não faz mal, porque eu arriscaria dizer que essa descrição é a realidade da maioria das mulheres que usam a frase. Pode ser que, em alguns casos, seja só alguém dizendo que vai fazer uma escolha por um alimento não tão saudável dentro da sua rotina equilibrada e nada restrita de alimentação, sem culpa ou arrependimento? Talvez. Mas acho bem improvável.

“Hoje pode” e suas variações não transmitem liberdade, e sim soam quase como um pedido de permissão. A quem? Soam como um pedido de desculpas, uma confissão, uma tentativa de reduzir a penitência pelo erro, um desabafo por ter quebrado as regras. Mas com quem falamos? Para quem estamos nos justificando? E por quê? Até quando?

14288224514_0e9055ecd4_kComo falei antes, eu sempre detestei essa frase. Antes, quando via alguém comendo um brigadeiro e anunciando em voz alta “hoje pode”, eu me sentia mal. Quando ouvia que, por ter um corpo magro, alguém poderia comer uma fatia a mais de torta, me sentia mal. Quando eu mesma escolhia qual seria a esperada exceção alimentar do fim de semana, me sentia pior ainda. Porque essa frase, repetidamente, me dizia que eu não podia. Ela estava ali só pra me lembrar que, em todos os outros dias, eu não tinha o controle sobre o que comia, que vivia sob regras que eu não criei, fazia refeições que eu não escolhi, por numerosas razões. Ou achava eu. Mas que razões?

Muita atenção para o que eu vou dizer. É polêmico. Preparem-se:

Sempre pode. Todos os dias. Pode o tempo todo.

E se for segunda-feira? Pode. Início do verão? Pode (pode também na metade, no fim e em qualquer outra estação). Também pode se não estiver de férias, se for noite ou dia, se for magra ou gorda. Sempre pode.

O que não pode é confundir essa permissão com uma sentença. A possibilidade de comer batata frita e sorvete existe, todos os dias, mas isso não significa que você vai basear a sua alimentação nisso para todo o sempre. Já falei disso antes aqui, e você faria muito bem se fosse lá ler o texto do link. Sabe por quê? Porque eu aposto que, se você ainda não leu, tá aí pensando que essa liberdade toda vai fazer com que você vire o monstro dos doces. A devoradora de tudo-o-que-era-proibido. Pensa que vai perder o controle, esquecer o próprio nome e dedicar a vida a encontrar a próxima loucura alimentícia a ser cometida. Né? A-pos-to que pensou. Mas você não vai. Novamente: leia aqui. Sempre pode, mas isso não quer dizer que você sempre vai fazer. Estamos entendidas? Que bom.
fwfwrerHoje, eu continuo detestando essa frase tanto quanto antes. Detesto porque é uma proibição disfarçada, não passa de uma liberdade torta e imperfeita. Para muita gente, pode parecer só uma frase boba, um comentário sem importância, algo dito sem qualquer maldade. Mas ela atinge em cheio quem vive constantemente se vigiando, como atingiu a mim e como deve ainda atingir muita gente que busca se contentar com esses fragmentos de permissão.

A briga contra essa cultura de restrição, proibições e controle do corpo feminino parece enorme e muito, muito difícil de ser vencida, e um detalhe desses não promete fazer a menor diferença. Mas, tenho certeza, é um detalhe que poderia fazer grande diferença para você, como fez para mim. Essa frase pode ser só mais um pedacinho do enorme cenário em que vivemos, mas recusá-la é recusar a proibição e buscar mais liberdade. E experimentar essa liberdade real sobre a própria fome e o próprio corpo faz, sim, diferença para muitas pessoas. E de que é a feita a cultura, se não de pessoas, seus pensamentos e ideias?

Eu resumo pra você aonde estou querendo chegar aqui: transformar a si mesma é também transformar um pouco o mundo, mesmo que seja só um detalhe. Então hoje pode deixar pra lá essa frase. E em todos os outros dias também. Combinado? 🙂