Com que olhos você se enxerga?

Posted on Posted in A relação com a comida, A relação mente-corpo, Cuidados com a Saúde, Estilo de Vida

Há cerca de um mês, uma mulher no lugar onde trabalho cortou o cabelo super curto. Na semana seguinte, apareceu com ele pintado de loiro. Semana passada, eu cheguei ao trabalho e dei de cara com ela, cabelo curto e ruivíssimo. Achei muito legal, pra falar a verdade, melhor até que o loiro. Infelizmente, as outras pessoas no trabalho, incluindo mulheres, não concordaram tanto… E, da minha sala, eu escutava as conversas no corredor:

“Mas Meire*, por que você fez isso? Seu cabelo era tão bonito comprido… E eu acho que essas cores não ficam muito bem em você.”
“O que aconteceu? Tá em crise, é? Pára de descontar no cabelo.”
“Podia ter só feito um alisamento e pronto, não precisava cortar. E essa cor? O que é que tá acontecendo, mulher?”

Não sei como você imaginou a Meire, mas ela é uma mulher negra. Gorda. E certamente tem mais que 50 anos. Claro que, depois, eu fiz questão de ir lá e contar a ela que achei que o cabelo ficou muito bom, sim, porque realmente achei. E sabem o que ela me respondeu?

“Eu gostei assim também, fiz por mim. Se alguém não gostar, não tem problema… basta não olhar e pronto. É fácil.”

Chegando em casa, continuei pensando sobre a resposta da Meire e a forma com que ela encarou toda a situação. E, a partir disso, comecei a refletir: com que olhos nós nos enxergamos?
3714888958_0b0ebf9b7d_oQuando escolhemos iniciar uma dieta pra perder (ou ganhar) peso, quando optamos por uma roupa considerada mais “adequada” para o nosso corpo, ao invés da que gostaríamos de vestir; quando colocamos maquiagem todas as manhãs; quando passamos na rua checando nosso reflexo em vitrines; quando recorremos, várias vezes durante o dia, ao espelhinho na bolsa; quando deixamos de ir à praia pelo medo de pôr um biquíni; quando optamos pelo prato menos calórico no restaurante; quando alisamos o cabelo; quando só vemos estrias e celulites no espelho; quando retocamos o batom; quando gastamos muito dinheiro naquele produto que promete “resolver o problema”; quando excluímos as marcações que fazem da gente nas fotos; quando, durante uma conversa, estamos mais preocupadas em saber como está a nossa aparência do que com o assunto em questão…

Em resumo, o tempo inteiro. Durante várias horas, de todos os dias, por anos.

Pensando nisso, tive a forte sensação de que estamos sempre nos olhando “de fora”, que temos uma visão externa de como estamos e de como parecemos. Desde muito novas, somos treinadas a enxergar com os olhos da mídia, dos familiares, da igreja, da cultura machista, da indústria. Olhos que enxergam tudo que precisa ser modificado em nosso corpo, tudo que é inadequado e errado, tudo aquilo que caracterizam como um produto e tudo que é um desrespeito. Como observadoras totalmente desconectadas do próprio corpo, nos enxergamos com olhos que não são nossos, e é aí que a dobrinha da barriga passa a importar mais que a tarde divertida na piscina. Enxergamos com olhos que julgam e condenam, mas que são totalmente incapazes de enxergar como nós mesmas.
patternsSe sentir sempre na vitrine é algo que vem agregado à experiência de ser e crescer como menina. Enquanto mulheres, nosso valor no mundo tem sido fortemente condicionado à aparência. Só para nós são escritos poemas que dizem “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”, só para nós é dito que temos que nos sentir atraentes, só para nós são feitos filmes em que o final feliz da protagonista é ficar bonita e arranjar um marido, só para nós são vendidos incontáveis produtos que tentam nos convencer de que não somos boas o bastante, assim como, ao mesmo tempo, são feitas campanhas inteiras focadas em nos convencer de que somos bonitas. Não que eu ache ruins as iniciativas de colocar em foco a beleza da diversidade e a importância de valorizar todos os tipos de corpos, mas será que não há algo mais? Não nos resta opção, a não ser amar a nossa “real beleza”? O máximo de conquista que eu posso ter na vida é me achar bonita, então?

Sem títuloEu não concordo, claro, mas é isso que somos levadas a acreditar. E essa busca pela beleza, essa busca pela aceitação, tem causado enormes danos. Dos quais, o mais gritante é a vida inteira de milhões de mulheres dedicada a lutar contra a própria fome. Lutar contra a comida. Arriscar a própria saúde em troca da felicidade que é vendida em cada anúncio que estampa uma modelo magérrima. Uma vida inteira esmagada pela culpa e pela sensação de inadequação, uma vida inteira acreditando que somos pouco, que o nosso valor é pequeno, que, até alcançar a aparência ideal, somos quase nada.

Pior ainda, somos levadas a acreditar que corpos “perfeitos”, retocados e artificiais, são sinônimos de saúde, quando isso está longe da verdade. Quanto mais nos agredimos e nos julgamos inferiores, mais longe estamos de alcançar o verdadeiro bem-estar. O desejo cego por alcançar um determinado padrão, muitas vezes, leva a escolhas e atitudes que são muito mais prejudiciais que benéficas. E há ainda mais, pois a crença de que somos inferiores faz com que tenhamos cada vez menos vontade de cuidar de nós mesmas. Como eu já disse antes, não há como ter vontade de cuidar de algo que julgamos ruim e errado, que queremos que não exista.
OLYMPUS DIGITAL CAMERANa batalha diária para ficarmos mais bonitas, prejudicamos a nossa saúde e a nossa autoestima. É uma situação em que nos sentimos continuamente derrotadas. Mas, de verdade, não precisa ser assim pra sempre.

Pra começar, saiba que você é capaz de muito mais do que apenas ser bonita. Você não existe apenas para ter a sua aparência apreciada e julgada.

Não parece nada de mais dito assim, mas pare pra pensar um pouco. Quantas vezes o seu dia, a sua semana, vários anos da sua vida, giraram em torno do seu peso? Quanto tempo você gasta pensando sobre o que você acha da sua aparência? E, pior, quanto tempo você gasta pensando no que os outros vão achar? Quanto de férias, festas, passeios, encontros, memórias e diversão foi desperdiçado por se sentir errada? Quantas vezes você escolheu fazer aquela dieta maluca, mesmo sabendo que não era assim tão saudável? Quantos detalhes e pequenos momentos foram ofuscados pelo pensamento de não ser boa o bastante? Quantas das suas promessas e resoluções tem mais a ver com seu corpo e a sua aparência e menos com o resto da sua vida inteira?

Quando foi a última vez que você se enxergou com os seus olhos?

Texto completo aqui: dressaday.com/you-dont-have-to-be-pretty/
Texto completo aqui: dressaday.com/you-dont-have-to-be-pretty

E, claro, eu não estou dizendo que você não pode querer ser bonita. Pode, sim! Eu só quero te lembrar de que não precisa ser aquela beleza da revista. Beleza não precisa machucar e doer, não precisa ser sinônimo de sofrimento. Você não precisa modificar cada pedaço seu, e parecer alguém que não é. Existem inúmeros tipos de beleza por aí, e dobrinhas, manchas, cicatrizes e rugas podem ter beleza também. Quero te lembrar de que é possível se desvencilhar das cobranças e pressões e se enxergar com mais gentileza e com mais respeito. E, acima de tudo, quero que saiba que ser bonita não precisa ser sua maior preocupação nem seu objetivo final. Quero que saiba que você é capaz de muito mais.
btflyCertamente, Meire ainda enfrenta momentos em que se questiona e critica o próprio corpo, mas sei que, quando cortou e pintou o cabelo, ela estava dando um enorme passo para mudar isso. Ela segue de cabelos curtos e vermelhos, feliz e segura. Mais do que dona do próprio nariz e capaz de fazer o que bem entende, a Meire é dona dos próprios olhos e do próprio olhar.

Minha vontade é de ser cada vez mais como ela. Quando me olhar e me enxergar de dentro pra fora, quero saber que as marcas no meu corpo existem porque eu não sou um enfeite, e sim um ser humano que vive e tenta aproveitar o máximo da vida. Quero me enxergar sem todos esses rótulos, julgamentos, padrões, pressões atrapalhando a visão.

Quando a gente finalmente se dá conta do mal que a busca por essa beleza irreal nos causa, de como estamos acostumadas e nos desvalorizar e nos submeter a vários tipos de agressão, de quanto já perdemos e já sacrificamos por estarmos nos enxergando com os olhos dos outros, é que começamos a querer lutar contra isso. Da indignação é que surge a força para mudar, e é por isso que eu escrevo e publico esse texto. Porque eu quero cada vez mais mulheres indignadas. Quero mais sentir o sol na pele e menos pensar no formato da barriga, mais aproveitar a festa e menos se preocupar com a roupa, mais valorizar as experiências e menos focar na aparência.

Escrevo para nos lembrar que o poder e o valor de ser mulher vão muito além do corpo.

Que eu sou capaz de muito mais do que “ver e ser vista”.

E que você é também. <3

* Nome fictício

Abaixo, o clipe de uma música que eu acho que tem tudo a ver com o texto:

“Coloque sua maquiagem. Faça as unhas. Enrole o cabelo. Corra um quilômetro a mais. Continue magra para que eles gostem de você. Eles gostam de você?

Mostre sua sensualidade. Não seja tímida, garota. Tire tudo. É assim que você quer ser. Para que eles gostam de você. Eles gostam de você?

Você não precisa se esforçar tanto. Você não precisa entregar tudo. Você apenas precisa se levantar. Você não precisa mudar nada.

Você não precisa tentar.

Vá fazer compras no shopping. Aumente o limite do seu cartão de crédito. Você não precisa escolher. Compre tudo. Para que eles gostam de você. Eles gostam de você?

Espere um segundo. Por que você deveria se preocupar com o que eles dizem sobre você quando você está sozinha? Você gosta de si mesma?

Você não precisa se esforçar tanto. Você não precisa se curvar até se quebrar. Você apenas precisa se levantar. Você não precisa mudar nada.

Você não precisa tentar.

Tire a sua maquiagem. Solte o seu cabelo. Respire. Olhe-se no espelho.

Não gosta de você?

Porque eu gosto de você.”

Imagens: Reprodução Flickr

15 comentários em “Com que olhos você se enxerga?

  1. Oi, Adriana!

    Nossa, que comentário lindo esse seu. <3
    Você me disse duas coisas que me deixaram muito, muito feliz: que os meus textos realmente conseguem passar o conhecimento e os sentimentos que tento colocar neles, e que tem mais gente por aí buscando mais autenticidade e felicidade, se aceitando e abandonando as preocupações e exigências desnecessárias. Muito, muito obrigada por isso!

    Concordo contigo, é um caminho que demanda determinação e coragem, mas que também traz, mesmo que aos poucos, uma nova forma de nos enxergar, de enxergar o mundo e de sermos realmente livres. Eu espero continuar nesse caminho e que você continue também. Vamos juntas. 🙂

    Mais uma vez, muito obrigada por sua gentileza e por suas palavras!

  2. Parabéns Ariela, entrei no site para ler uma matéria e acabei vindo ler uma publicação sua. A forma que você escreve e passa seus sentimentos e conhecimentos para as pessoas é sensacional. Confesso que adoro ler esses tipos de textos, tanto que esse já foi o meu 5º ininterrupto. Sobre o o tema, adorei, estamos vivendo em um tempo onde o que as pessoas vão pensar passa ser algo primordial. Deixar de viver os bons momentos por essa preocupação é doloroso, digo isso pois também fui assim, estou mudando o meu modo de pensar e agir, e como todo processo de mudança, demanda determinação, em não voltar a ser como antes.

    Uma vez me falaram: A vida é breve, aproveite, viva e seja feliz! E apartir daí venho quebrando as prisões internas em que eu estava, aceitando e sendo cada vez mais eu.

    Mais uma vez, parabéns pela postagem, e que continue assim, ajudando a melhorar a vida das pessoas, sendo um divisor de águas e incentivando ser o melhor que podemos ser.

  3. Oi, Andrea!

    Antes de tudo, quero te agradecer por vir aqui e compartilhar um pouquinho da sua história, de verdade.
    Todos nós temos experiências para as quais olhamos e sentimos culpa, arrependimento, angústia. Muitas vezes, desejamos poder voltar atrás e refazer algumas das coisas, recuperar o “tempo perdido” e poder ajudar aquele “eu” do passado, que a gente agora vê que estava tão perdido. Isso é natural, claro, mas não é tão proveitoso.

    Por isso, fico feliz em ver que você passou a encarar essas experiências como aprendizado, e que consegue se sentir livre para gostar e cuidar de si mesma! Parabéns! 🙂

    Como você, também desejo que mais e mais mulheres encontrem a paz e o bem-estar em si mesmas, e é justamente por isso que faço esse trabalho.

    Mais uma vez, muito obrigada pela suas palavras e por sua gentileza. Beijos!

  4. Boa tarde, Ariela! Encontrei o seu texto por acaso, na minha busca para resgatar a autoestima. Até a minha adolescência sempre fui tímida mas nunca foi empecilho para me relacionar. Aconteceram mudanças drásticas na minha vida e sentia que era um tipo de castigo e eu merecia sofrer aquilo pois devia ser uma pessoa muito ruim. Sempre senti minha auto estima lá embaixo mas não sabia oque fazer… achava que quando conseguisse emagrecer apenas os 10kg que me sobravam e vestir roupas bonitas me sentiria melhor, mas não era isso, afinal. Sentia culpa por não conseguir me divertir como todo mundo e cheguei a fingir que estava tudo bem para ninguém ficar me questionando “porque está triste se tem tudo na vida para ser feliz?” não sei… parece tão fácil pras outras pessoas… Devia ter procurado ajuda antes, mas hoje prefiro pensar “antes tarde do que nunca”. Hoje consigo perceber que se tivesse tentado olhar com outros olhos o que aconteceu na minha vida, veria a oportunidade que deixei passar. Hoje passo por um momento muito triste e acredito que a minha autoestima baixa contribuiu muito para que isso acontecesse. Mas agora tomo como lição e “bola para frente” aprender com os erros. Apesar de tudo, agora consigo me sentir livre para cuidar e gostar de mim. Espero que todas encontrem paz dentro de si mesmas pois não precisamos ser aceitos, temos que nos aceitar. A nossa felicidade não está nos outros, mas dentro de nós (eu li isso em algum lugar e achei muito bom). Obrigada 🙂

  5. Oi, Lizzy!

    Comentários como o seu sempre me emocionam, porque sei exatamente do que está falando, e já vivi coisas bem parecidas. Fico feliz que o meu texto pôde te ajudar a ter um caminho com mais autoestima e amor próprio! Lembre-se: a sua vida é só sua, e cada momento dela é importante. Não entregue a escolha de aproveitar seus dias nas mãos de outras pessoas. 🙂

    obrigada por suas palavras!

    Abraços,

    Ariela.

  6. Olá, Renata!

    Que alegria em saber disso. Para se sentir bonita, o caminho está aí dentro de você, não do lado de fora. E lembre-se: você pode ser bonita e também pode ser muito mais!

    Obrigada.

  7. Estou lendo esse texto em março de 2015 e como comentaram ali em cima trouxe paz e creio que trará a muita gente tbm. Obrigada por compartilhar Ariela, eu tenho 26 anos a 26 anos me enxergo com olhos de fora, com os olho de outros. Sempre fui gordinha e sempre falaram das minhas roupas e peso e eu me preocupei com Isso a vida inteira, perdi minha adolescência e muitos momentos felizes por puro preconceito comigo mesma tentando agradar todo mundo… Não vou perder mais esse texto está me fezendo refletir bastante. Obrigada. Deus te abençoe.

  8. Oi eu busquei no gogle como conseguir me sentir bonita e apareceu seu texto. Eu me identifiquei demais com ele e isso me ajudou obrigada

  9. Oi, Larissa!

    Que legal saber que gostou do texto e, mais ainda, que você acredita ter encontrado maneiras de lidar com tudo isso e levar as coisas de maneira equilibrada. 🙂

    Adorei saber que as minhas palavras puderam transcrever o que você pensa e desejo realmente que elas levem mais tranquilidade pra muita gente! Obrigada pela gentileza, de verdade.

    Abraços!

  10. Esse texto pois tudo o que eu penso pra fora.. Nao sou boa com as palavras, mas vc foi maravilhosa. Lendo as noticias que giram em torno disso, vaidade, status etc, as vezes bate um desespero.. Parece que as pessoas estao vivendo um universo paralelo, cada vez mais querendo aparentar, menos ser, mais TER (pra mostrar), menos ser.. ou até querem ser, mas para agradar, não se respeitam, não se levam em consideração… Graças a deus considero estar em equilibrio no meio disso.. Mas com certeza é algo diario, porque esses bombardeios que vc cita, sao diarios.. Enfim, tenho certeza que esse texto trouxe mta paz (e ainda trará) pra muita gente! Obrigada! Vc é uma graça! 😀
    Bjs

  11. Olá Ariela!

    Vou comentar nesse, mas estou adorando seus textos em geral. Quero ler todos!
    Obrigada por compartilhar conosco 🙂

  12. Pingback: Sunday Links #20 |

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *