Proibições, obsessões e vontade de fazer xixi

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Imagine que você esteja com vontade de fazer xixi. Calma, não se assuste, eu prometo que vamos chegar a algum lugar legal com essa reflexão. Prometo. Continua aqui. Então… Vontade de fazer xixi. E você está em casa ou no trabalho, e há um banheiro logo ali, livre e limpinho. Também vamos dizer que você esteja ocupada com alguma coisa bem no momento em que sente essa vontade. Seja sincera… Você fica enrolando para ir ao banheiro, né?

Mesmo com a vontade aumentando, sempre dá pra ler mais um e-mail, responder uma mensagem, mais um clique, anotar um compromisso, ver só mais aquele vídeo de gatinho fofo… Quer dizer, o banheiro está ali e vai continuar ali, não há por que ter pressa. E aí, entre tantas distrações, você esquece do xixi e, quando percebe, a vontade já está urgente e, para evitar um acidente, você finalmente cede e vai ao banheiro. Não precisa ficar com vergonha de admitir, eu faço isso também e aposto que muito mais gente faz. Poderíamos até organizar a Sociedade dos Ignoradores de Xixi Anônimos, mas deixa pra outra hora. Continuando…

toilet2Agora, vamos considerar outra situação. De repente, surge a já conhecida vontade de fazer xixi. Só que, dessa vez, você não está em casa ou em um lugar com banheiro próximo, você está… No trânsito. Que está terrível, tudo parado. Sem sinal de melhora. Ou, quem sabe, bem no meio de um show, com várias pessoas em volta, e muitos, muitos metros separando você do banheiro mais próximo. Você poderia estar também em um lugar público, e o único banheiro disponível estaria trancado ou interditado.
emojiJá não parece tão fácil ignorar aquela vontadezinha, né? Nessas situações, logo após ela, vem imediatamente o pensamento: “P#!$&, onde é que eu vou fazer xixi agora?”. Conforme a vontade cresce, você vai ficando mais e mais preocupada, e deixando de se concentrar em outras coisas. Trânsito, pessoas, música, show, conversa, universo… Tudo some, e, em sua mente, só permanece o fato de que você precisa fazer xixi e não há banheiro. Xixi, xixi, xixi… Nenhum banheiro. Socorro. E agora? Isso vira uma verdadeira obsessão, mesmo antes de a vontade se tornar incômoda ou insuportável.

Por que será que a nossa mente funciona de maneira tão distinta nessas duas situações, se a vontade de fazer xixi é exatamente a mesma? Bom, eu acho bem simples: a nossa mente se torna obcecada na segunda situação porque existe um problema, que, se não for resolvido, pode trazer consequências bastante indesejadas. E, se formos ainda mais longe nessa análise, ainda podemos enxergar de outra maneira – a obsessão também tem outro motivo muito interessante: no segundo caso, na prática, fazer xixi é temporariamente proibido. Tudo bem que é socialmente e higienicamente proibido, mas é e pronto.

Que inconveniente.
Que inconveniente.

Se parar pra pensar, a causa da obsessão, de fato, não é a presença da vontade de fazer xixi. É a ausência de banheiro. É a sensação de não poder realizar o que se deseja.

E aí, a certo ponto, tudo em que o nosso cérebro consegue pensar é: “Mas eu quero! Por que não posso? Eu preciso. Agora mesmo!”. E é muito complicado explicar a ele e ao corpo que uma coisa tão simples e tão necessária é proibida, assim, quase como vingança, eles nos torna obcecadas com a situação. Ficamos proibidas de simplesmente ignorar o xixi, como teríamos feito antes.

Tá, tudo bem, entendido. Falei um monte sobre xixi, mas aonde eu quero chegar com isso? Bom, para ser sincera, eu pensei sobre isso quando estava refletindo sobre como tentamos negar e ignorar a nossa fome, nosso apetite, nossos desejos e vontades específicas. Sabe quando você está de dieta, e o “correto” é fazer seis refeições (medidas, calculadas e limitadas), mas você continua com fome depois da última? Ou quando o “ideal” é comer de 3 em 3 horas, mas, apenas 1 hora depois do lanche, você já está querendo devorar qualquer coisa que aparecer?

Nessas situações, tendemos a ignorar a fome e continuar as nossas atividades, mas a gente sabe bem que não dá certo. A obsessão começa. Você passa a monitorar o relógio, contando os segundos. Tem vontade de arrancar o cabelo do colega que aparece com uma coxinha na sua frente. Masca um chiclete, toma um chá, escova os dentes… Resolve dormir para esquecer a fome. Enfim, as estratégias são inúmeras, mas elas nunca funcionam. Você não consegue simplesmente fingir que a fome não está ali e parar de pensar em comida. Seu cérebro está no modo eu-quero-e-quero-agora, e não há saída.
snackSabe por quê? Porque comer é uma necessidade fisiológica. Tanto quanto beber água ou, sim, fazer xixi. Seu organismo não sabe se já acabou a “cota de pontos” diária. Ele não sabe olhar as horas, não tem conhecimento das regras da dieta. Não dá pra explicar a ele que algo tão simples e necessário é proibido. Ele vai fazer o que for preciso para que você entenda que precisa comer.

Mais uma vez, o problema não é ter fome. Não precisa ficar se odiando porque parece que você só pensa em comida, o problema também não é com você. O problema é que comer é proibido. É isso que origina a obsessão.

chocolateE não se engane acreditando que isso acontece apenas com horários e quantidades… O nosso corpo também costuma saber muito bem das suas necessidades e preferências por determinados alimentos. Claro que desejos constantes por industrializados e refinados devem ser investigados, pois podem ser prejudiciais à saúde, mas estamos acostumados a ignorar todo tipo de desejo. Se a dieta é de baixa gordura, ignoramos a vontade de colocar uma manteiguinha na torrada. Se o objetivo é evitar carboidratos, fingimos que aquela vontade de comer batata não existe. Se estamos em uma dieta em que há excessiva preocupação com a qualidade nutricional dos alimentos ingeridos, abandonamos para sempre o sonho de comer brigadeiro na festinha. E assim vamos desprezando todos os pedidos do nosso organismo, um atrás do outro… Desrespeito atrás de desrespeito.

Como já falei antes, seguir regras restritas de alimentação faz com que percamos a conexão com os nosso sinais de fome e de saciedade, e com que a gente acredite que não sabemos comer. Bobagem. Com informação adequada e conhecimento do próprio organismo, todo mundo sabe comer.

A única estratégia que eu enxergo para fugir desse ciclo de restrição e obsessão é esta: dar a si mesma permissão irrestrita para comer. Isso mesmo, permissão para que você escolha o que, o quanto e quando você deseja comer. Já sei o que está pensando: “Essa moça ficou louca, isso é impossível! Eu vou viver à base de batata frita e paçoca.” Ou, sei lá, coxinha e sorvete. Insira aí as suas preferências. Talvez você pense que perderia o controle e sairia comendo tudo que visse pela frente.

Não vai.

Bom, talvez alguns exageros realmente ocorram. Talvez o seu corpo leve certo tempo para se readaptar a essa situação de controle. Pode ser que você demore um pouco para recuperar total autonomia sobre o seu processo alimentar. Talvez sua vontade seja de realmente comer alguns chocolates a mais, só pra se vingar da restrição. É normal.

Mas o corpo não é burro! O meu não é, e o seu também não. Nós queremos saúde, bem-estar e felicidade, e as nossas escolhas refletem esses desejos. Comer sorvete e até cometer alguns exageros de vez em quando não é prejudicial, são coisas que fazem parte do processo normal da alimentação. Mas basear a sua alimentação em comidas pouco nutritivas faz mal, e o corpo sente e percebe isso.
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A permissão alimentar é algo possível para todas, mas não sem alguns cuidados. É preciso conhecer bem o próprio organismo. É preciso estar bem informada sobre quais são os alimentos mais nutritivos e que mais contribuem com a saúde, assim como saber quais são os que fazem bem para o seu corpo e a sua mente. É preciso querer cuidar de si mesma. E é preciso priorizar o equilíbrio.
Health FoodNa verdade, a total liberdade alimentar vai fazer com que você pense muito melhor nas suas escolhas, ao invés de só seguir o que outra pessoa mandou. Porque é você quem está no controle, e a responsabilidade é sua. Parece uma tarefa bem assustadora a princípio, mas garanto que também é recompensadora e que vale muito a pena. Em minha opinião, muito mais assustador que isso é a ideia de entregar a responsabilidade de algo tão valioso e particular quanto a alimentação a outra pessoa. Ou pior, entregar a uma revista de dieta qualquer. Será realmente a melhor ideia? Eu acho que não.

Acho que é hora de recuperar o poder sobre a sua alimentação e sobre o seu corpo! É hora de dar mais um passo na direção de ser cada vez mais livre. 🙂

Imagens: Reprodução Flickr

10 thoughts on “Proibições, obsessões e vontade de fazer xixi

  1. Oi, Paula!

    Poxa, que comentário lindo. Está tudo aí! Eu digo junto contigo: “Por que devemos seguir a maioria? Por que devemos nos deixar levar por fatores externos? Cada ser tem particularidades essenciais, cada organismo difere dos outros, de fato, o que é bom para mim não é para meu colega”. 🙂

    Que bom que também está trabalhando para se reorganizar internamente e, o mais importante, sem pressa e cobranças, mas com liberdade. Fico muito feliz quando vejo experiências assim!

    E espero que eu possa continuar contribuindo para seu processo, assim como essa interação com vocês aqui no site contribui muito para mim.

    Obrigada pelas suas palavras. Beijo!

  2. Nossa Ariela, estou adorando suas matérias. Me identifiquei demais… a constante briga entre corpo, mente e vontade real rs… Realmente, por que devemos seguir a maioria? Por que devemos nos deixar levar por fatores externos? Cada ser tem particularidades essenciais, cada organismo difere dos outros, de fato, o que é bom para mim não é para meu colega…
    E é por isso que estou ultimamente numa luta contínua para travar essa culpa que invade e tentar reorganizar tudo, mas sem cobranças e pressa, mas me permitindo ser mais livre.
    Obrigada pelos textos motivadores e dividir as experiências conosco. Ótimo trabalho!

  3. Obaaa! Adoro quando alguém comenta contando um pouquinho da própria experiência.

    É isso aí, Andrea, o nosso corpo possui uma sabedoria própria, mas nós é que, muitas vezes, nos desconectamos dele. Desde que não haja fatores outros interferindo negativamente na nossa relação com a comida – questões emocionais ou transtornos alimentares, por exemplo -, essa ideia de que comeremos loucamente tudo que há de menos saudável não passa de um absurdo. O caminho para o equilíbrio pode ser meio tortuoso, mas é possível chegar lá sim!

    Muito obrigada pelo seu comentário. 🙂

    Beijo!

  4. Olá! Comprovo a veracidade desse texto na minha vida. Não me privo de nada (desde que não me faça mal, óbvio) e nem por isso como toneladas. Já fiz até o experimento: uma vez, comprei sacolas de chocolates (porque eu amo chocs <3), de todos os tipos, mas não os devorei como achei que devoraria. É verdade mesmo, chega uma hora que seu corpo dá o sinal que desse jeito não dá. Eu posso passar um, quem sabe dois dias sem almoço/janta, mas no próximo, estou subindo pelas paredes pela vontade de comer meu pratinho com arroz, feijão, saladinha, carne e isso por mais que eu esteja comendo sanduíches, pizzas e salgados.
    Se privar de comer realmente só te faz ter mais vontade e a chance de extrapolar quando não conseguir mais segurar, é imensa.

  5. Oi, Gabriela!

    Que bom saber que tem verdadeiras apreciadoras da castanha de caju visitando o meu site. hahaha Fiquei feliz demais em saber que leu os outros textos e que se identificou. 🙂

    Concordo plenamente contigo: somos pessoas livres, mas, muitas vezes, nos esquecemos disso e acabamos por nos aprisionar. É uma alegria enorme saber que, afinal, meu objetivo com esse texto está sendo cumprido.

    Obrigada pelo seu comentário e por compartilhar aqui um pouquinho sobre você!

    Beijo

  6. Depois de me empolgar muito pra fazer tuas receitas, comentar de forma compulsiva com meu namorado que quero muito fazer o creme de castanha (pq sim castanha de caju é a melhor coisa do mundo e eu não compro grandes quantidades no mercado pq é “só mais um pouquinho” até a última acabar), me empolguei para ler mais uns textos teus, pq quem ama comer coisa boa mesmo só pode ser boa gente. Cliquei nesse pq eu sou uma piada com essa coisa de xixi, sempre na última. Até ja pensei em ir no pscicologo depois de fazer varias vezes xixi na porta de casa pq não achava as chaves hahaha Mas enfim, esse teu texto foi uma das coisas mais lúcidas que já li sobre alimentação e dietas em geral. Somos pessoas livres, livres pra fazer nossas próprias escolhas. A melhor maneira de levar a vida é amar a si mesmo e não escravizar a si mesmo. Obrigadaaaaa

  7. Oi!

    Poxa, que legal que gostaram tanto assim da receita. Ela também é das minhas preferidas! 😀 E adorei a ideia de adicionar castanhas, vou fazer isso também.

    Muito obrigada por vir aqui contar, Thais!

    Abraços.

  8. Oi Ariela, fiz o bolo de banana da terra verde! Simplesmente perfeito! Ficou tão gostoso que foi aceito numa boa pelo marido! hehehe….praticamente não dá para perceber que não foi farinha! Perfeito! Na próxima vez iremos colocar castanhas também, pois a receita entrou no meu livro como uma das receitas preferidas. Rápida e prática alem de tudo!

  9. Oi, Thais.

    Primeiro, fico muito, muito feliz que tenha se identificado com os textos e que esteja gostando do blog.

    Quanto a essa ideia da restrição, tá aí algo realmente difícil de desgrudar da nossa cabeça! Depois de muito tempo seguindo a lógica das dietas, temos uma imensa dificuldade de voltar a enxergar os alimentos sem a carga moral e proibitiva que costumávamos atribuir a eles. Assim como também temos dificuldade de encarar a nossa fome e a nossa liberdade para comer como normais e aceitáveis. Mas sabe, isso tudo é parte do processo!

    Adorei como você descreveu as etapas pelas quais passamos quando decidimos fazer uma dieta, incluindo as consequências da restrição e a culpa por não conseguir seguir todas as regras. Da mesma maneira, quando decidimos abandoná-las, também passamos por fases de aprendizado, e essa de se reconectar com a sua liberdade alimentar, certamente, é mais uma delas. Garanto que vale muito a pena passar por esse processo!

    Ah, e bolo também é o meu preferido. 🙂 Depois vem aqui contar se fez a receita e se gostou, que tal?

    Muito obrigada pelo seu comentário!

    Abraços.

  10. Ariela, estou amando os seus textos! Me identifico muito bem com o seu ponto de vista! Era algo que vinha dentro de mim, mas não tinha base pra me expressar! Estou amando as suas receitas também, e ver alguém que disponibiliza receitinhas saudáveis de bolo, perfeito!, pois é o meu preferido que estava ignorando para poder seguir com a vida saudável! Agora depois de ler esse texto, vou me presentear no final de semana com algum receita de bolo! Pois passei por toda essas fases, de determinar fazer a dieta, emagrecer e depois sair destruindo tudo para recompensar o que não tinha comido! E a auto punição de ter cometido esse erro, que acredito que foi a pior fase. Agora depois de um tempo, criei forças para voltar a viver melhor, mas pelo que vi, estava cometendo o mesmo erro. Ou me enganando, já que as restrições de certos alimentos estava acontecendo novamente.

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