Transtorno de Ansiedade Nutricional

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É hora de tirar o medo e a confusão do seu prato

Recentemente, eu estava lendo um texto que publiquei na página do site no Facebook, e decidi que precisava comentar mais sobre o assunto, já que ele continua tão presente para mim e, provavelmente, para muitas pessoas por aí também. Talvez seja bobagem falar, ou pode mesmo parecer repetitivo, mas todos os dias eu penso como é absurda a quantidade de informações-valiosíssimas-e-imperdíveis sobre alimentos que vemos nas revistas, na TV, em sites, nas conversas das pessoas… Todo mundo parece ter algo a dizer sobre alimentação, sempre aparece algo novo que precisamos evitar a todo custo ou consumir constantemente, caso contrário, nunca alcançaremos a saúde perfeita ou a barriga o mais negativa possível.

vitaminC_pillsSe você parar pra pensar e pesquisar rapidamente, essa não é uma tendência nova. Houve uma época em que a coisa mais importante do universo era consumir alimentos “enriquecidos”, alimentos com vitaminas e minerais, alimentos, teoricamente, muito mais completos e saudáveis. Depois, a moda principal era a batalha do bem e do mal que acontecia na cozinha: gordura era do mal e grãos do bem, daí depois fibras são as defensoras da paz e da justiça e, recentemente, parece que há uma tendência a gorduras serem do bem e intensificarmos a caça aos carboidratos.
Além disso, eu tenho notado uma tendência ainda mais contemporânea: a comida funcional, a receita funcional, a dieta funcional. Se o alimento não tem algum superpoder escondido, não vale muito hoje em dia.

Daí, você olha rapidamente por aí e acaba atropelado pela quantidade de recomendações: evitar excesso de açúcar, mas focar em alimentos cheios de vitaminas. Cortar carboidratos e comer vários alimentos ricos em ômega-3. Diminuir a quantidade de gordura e catar cada fonte de antioxidante que encontrar pela frente… Ou pior, comer industrializados com baixa quantidade de gordura ou açúcar, cheios de ingredientes artificiais, e suplementar a alimentação com cápsulas e comprimidos. Todo dia surge um novo alimento culpado pelas doenças, assim como cada capa de revista apresenta o super nutriente salvador da vez. A indústria descobriu como faz sucesso essa coisa de vilões e mocinhos da alimentação, de alimentos mágicos, e, ao invés de focar em contribuir com informações de saúde, tem investido cada vez mais em aumentar a confusão. Só é correto escolher o que vai no prato baseando-se nas características nutricionais do alimento, mais nada.

Gosta de coxinha? Lamento, foi feita no óleo vegetal, é um veneno. Prefere uva verde? Azar o seu, a roxa tem mais antioxidantes. Seu sorvete preferido? Deve ter gordura trans. E seus dias de comer glúten ou lactose ficaram no passado, claro.
412-1Enquanto as informações e recomendações se acumulam, as pessoas vão ficando cada vez mais confusas e ansiosas quanto ao que colocar no prato. Convenhamos que não é para menos! Em todo lugar, tem alguém dizendo o quanto a sua alimentação está errada, como você está falhando em não comer alimento “tal”, como sua saúde e a sua vida poderiam ser melhores se você acrescentasse aquele suplementozinho no café da manhã. E, pelo tom que usam ao passar essas informações, a impressão que fica é que é muito fácil de fazer, que todo mundo já está fazendo, e que você é a única pessoa que ainda não tomou essa atitude de mudar de vida, que é a mais desinformada e atrasada, que vai passar vergonha na frente dos amiguinhos e tudo mais. Para falar a verdade, o Transtorno de Ansiedade Nutricional, que dá título a este texto, é uma condição que acabei de inventar, mas eu diria que anda fazendo muitas vítimas por aí…

Vou te contar umas verdades: não dá pra comer chia no café da manhã, goji berry no almoço e suco verde no jantar todos os dias. Às vezes, dá preguiça de preparar uma refeição saudável e a gente recorre a outras opções. Alimentos funcionais não são a resposta para todos os males da Humanidade e, acredite em mim, milkshake e batata frita não planejam te matar.
4713904442_1a84628cc4_oNão é que eu ache que todas essas informações e recomendações sobre os benefícios dos alimentos não são válidas, sabe? Claro que são. O grande problema é como elas estão sendo usadas, porque, pelo que tenho visto, elas só têm servido para gerar infelicidade, para fazer terrorismo, para nos fazer comprar produtos que prometem milagres e soluções, mas de nada servem para nos fazer mais saudáveis ou felizes. E o pior é que, depois de décadas ouvindo que nós não sabemos comer e que é preciso seguir regras, nós acabamos acreditando.

pobghkn284wmqbAliás, já falei sobre isso anteriormente e reforço: você nasceu sabendo comer. O caso é que essa ansiedade nutricional traz ainda muitos outros prejuízos. Cá entre nós, depois de contar as calorias da sua refeição, verificar se há fibras e proteína suficiente, controlar o tamanho das porções, pesquisar se está consumindo vitaminas e minerais suficientes e, por fim, listar todas as propriedades funcionais dos componentes do seu almoço, não sobra muito tempo ou ânimo para aproveitar a comida, não é? Onde é que ficam, então, o prazer e a tranquilidade e a satisfação com a alimentação? Embora seja extremamente importante conhecer os efeitos positivos e negativos dos alimentos no seu organismo e utilizar este conhecimento para cuidar da saúde, tudo que leva ao radicalismo acaba se tornando prejudicial.

Eu não acho que está nos faltando informação. Na verdade, há informações demais até, informações o tempo todo, informações, algumas vezes, até contraditórias. Se a solução fosse realmente conhecer todos os alimentos mais nutritivos e “funcionais”, as pessoas não estariam cada vez mais frustradas ou preocupadas na hora de comer. Concorda?

Em minha opinião, informação há de sobra, temos informação aos montes. O que nos falta é inspiração, é transformação.

Dados e estatísticas, apesar de úteis, não promovem grandes mudanças de comportamento e de atitude, e é por isso que eu proponho um caminho alternativo na busca por uma alimentação mais saudável. Um caminho que inclui conhecer melhor o seu corpo, suas sensações e desejos, e também conhecer melhor a sua comida, entender de onde ela vem e como ela é feita, abandonar as regras e limitações e descobrir pela experimentação.

Regras e rigidez nos aprisionam, enquanto autoconhecimento e flexibilidade libertam.

Da mesma maneira que acredito que não é possível se alimentar pensando apenas em ter prazer, também não dá para comer pensando apenas em nutrientes e benefícios funcionais. Sempre defenderei a simplicidade e o equilíbrio como as melhores estratégias para ter uma boa alimentação. Escolha alimentos simples, naturais e preparados em casa. Decida se quer fazer algumas exceções aqui e ali para aqueles alimentos não tão saudáveis, mas deliciosos. E, acima de tudo, livre-se da culpa. Já é hora de fazer as pazes com o nosso alimento e nossa forma de comer, chega de complicar!
7972941746_1303a8c4e5_bE, veja bem, se for para considerar propriedades… Eu tenho a audácia de defender que bolo e pizza possuem a propriedade de serem deliciosos. Mas não contem a ninguém que eu disse. 🙂

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Nota: Alguns leitores vieram comentar comigo sobre a existência da Ortorexia, transtorno recentemente identificado, que parece bastante com o que eu descrevi no texto. A Ortorexia Nervosa é caracterizada como um comportamento patológico, em que o indivíduo torna-se excessivamente preocupado com a pureza e retidão da alimentação. Ela ainda não é um distúrbio autônomo, sendo considerada, pela maioria dos estudiosos, ainda como uma variante dos outros Transtornos Alimentares e do comportamento Obsessivo Compulsivo. Gostaria de ressaltar que não era sobre ela, exatamente, que gostaria de falar no texto. Utilizar essa nomenclatura levaria a crer que eu estou falando da doença especificamente, mas a minha principal intenção era tratar justamente de como a maior parte das pessoas tem apresentado algum tipo de conflito alimentar, em maior ou menor nível hoje em dia, e não necessariamente seriam consideradas como ortoréxicas. E, mais que isso, demonstrar como a indústria e a mídia têm contribuído negativamente para a situação. Para quem quiser saber mais sobre a Ortorexia, segue um excelente artigo:

Ortorexia Nervosa: reflexões sobre um novo conceito.

Imagens: Reprodução Flickr
Reprodução Google Images

5 comentários em “Transtorno de Ansiedade Nutricional

  1. Oi, Bruna.

    Gostaria que soubesse que, da mesma maneira que aprendemos a ter um comportamento alimentar disfuncional, com dietas e restrições, o processo de voltar a comer e se relacionar com a comida normalmente também é um aprendizado. Cada passo desses que você citou ajudou a compor a sua relação particular com os alimentos, cada um deles teve sua contribuição, e também o caminho para uma forma saudável e equilibrada de se alimentar vai ser exclusivamente seu. O mais importante é que você está consciente de que deseja ter uma relação de paz com o seu corpo e a sua alimentação. 🙂

    Se quiser, entre em contato comigo via e-mail para conversarmos melhor!

    Muito obrigada pelo seu comentário e por compartilhar conosco.

    Abraços!

  2. Ariela.. boa tarde… estou encantada com seus textos.. eu penso exatamente como você, mas ainda não consegui essa liberdade sobre a comida.. sobre a obesidade que me acompanha desde criança..
    Tenho muito à aprender.. passei por muitas dietas, remédios, endocrinologistas, nutrólogos.. nutricionistas, programas de reeducação alimentar.. estava inclusive na fila para a cirurgia bariátrica, mas desisti por medo.
    Ainda preciso mudar a atitude em relação ao comer…
    Continue escrevendo me ajuda muito. Um dia quando eu puder vou te contratar para o coaching. bjs

  3. Olá, Samantha! Eu fico muito feliz que tenha gostado do texto.

    E sim, eu conheço a existência da Ortorexia e, inclusive, sofri com este quadro por algum tempo.

    Segundo eu li, a ortorexia ainda não é um distúrbio autônomo, sendo considerada, pela maioria dos estudiosos, como uma variante dos outros Transtornos Alimentares e do comportamento Obsessivo Compulsivo. Mas não era sobre ela, exatamente, que gostaria de falar no texto… Utilizar essa nomenclatura, levaria a crer que eu estou falando da doença somente, mas, como você mesma disse, minha intenção era tratar justamente de como a maior parte das pessoas tem apresentado algum tipo de conflito alimentar, em maior ou menor nível. E, mais que isso, demonstrar como a indústria e a mídia têm contribuído negativamente para a situação. Espero que tenha esclarecido. 🙂

    Agradeço muito sua contribuição e vou incluir essa observação ao final do texto, para que também fique mais claro para outras pessoas. Obrigada!

    Abraços!

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