AlimentaçãoCuidados com a SaúdeEstilo de Vida

O intestino – Muito além do que você imagina

Imagine um ambiente extremamente ativo, fértil, em constantes mudanças, que é fonte de neurotransmissores e hormônios, é o local em que se encontra a maior quantidade de neurônios do nosso corpo depois do cérebro, e é o sítio gerador e regulador de importante parte do nosso sistema de defesa. Também é detentor da capacidade de digestão e absorção das moléculas que constituirão o nosso organismo, nos darão energia e nos manterão vivos. É a casa de trilhões de bactérias, cuja complexa relação de simbiose conosco vem, cada vez mais, sendo reconhecida como um dos pilares da saúde.

Imaginou?

Este é o nosso sistema digestivo. E a outra forma de encará-lo é como uma série de tubos que fazem a ligação entre a boca e o ânus. É. Tubos que servem de caminho para a comida se transformar em bolo fecal e ir embora. Só isso mesmo: chega a comida, passa por esses tubos e tchau, acabou.

gutsNão sei você, mas eu gosto muito mais da primeira descrição. A medicina oriental, com destaque para a prática Ayurvédica, também acha que essa primeira forma de encarar o sistema gastrointestinal está muito mais próxima da realidade, e é fundamental para nos ajudar a entender sua vital participação na promoção e manutenção da nossa saúde, assim como também desvendar o surgimento de diversas condições patológicas. Infelizmente, em muitos consultórios aqui do Ocidente, ainda é comum enxergar somente a história dos tubos. Não é que esses conhecimentos não sejam conhecidos ou difundidos, eles são e serão cada vez mais, mas ainda falta uma integração entre a teoria e a prática, uma inclusão dessa realidade no raciocínio clínico, fazendo com que se mantenha essa visão simplista e ultrapassada. Até os especialistas no sistema gastrointestinal tendem a ignorar este lado interessante e criativo do coitado.

Se tiver uma obstipação muito longa, sugere-se modificações dietéticas, talvez um laxante. Tumor? É só tirar a parte doente e pronto. Se tiver alguma disfunção intestinal para a qual não é possível encontrar razão em exames, a solução é mais uma dieta restrita e, normalmente, antidepressivos. E o mais curioso é que até é reconhecida a intensa relação do sistema digestivo com nossas emoções e com o estado mental, apenas uma das suas múltiplas facetas e interações com outras porções do nosso organismo, mas para-se por aí. Nos antidepressivos. Ou nos laxantes, nas cirurgias, nos analgésicos, nos antiácidos… Eu não preciso me demorar muito nesses exemplos, tenho certeza que, até por experiência própria e de conhecidos, consegue entender o que estou falando.

cnn-425x252.trust.gutE eu não estou dizendo que essas intervenções não têm seu valor! Elas são úteis, eficazes, melhoram o bem-estar e, em alguns casos, até salvam vidas. Mas, como sempre, estamos diante da velha fórmula de atacar a consequência, e não a causa. Na minha opinião, há uma falha de conduta generalizada, um erro muito óbvio e, infelizmente, muito comum:

Não se questiona o porquê. O verdadeiro motivo não é buscado, permanece-se nadando apenas na superfície, esperando a doença emergir para ser combatida, ao invés de ir ao fundo buscar a causa. Por que o intestino não está funcionando? Por que essa doença surgiu? Onde está realmente o problema?

Já falei disso anteriormente, mas é um assunto inesgotável, e eu quero compartilhar uma analogia que vi recentemente. Na prática médica ocidental atual, a lógica vigente faz com que todos os profissionais pareçam estar jogando wacko. Sabe aquele jogo em que o jogador, munido de um martelo, tenta acertar os bichinhos que surgem aleatoriamente em vários aberturas? Pois é. A forma com que a medicina tem lidado com doenças é justamente essa: um sintoma aparece aqui, e usamos um remédio para martelar ele. Pouco depois, outro sintoma surge ali, e lá vamos nós atacar de novo. Sintoma, martelada, sintoma, martelada, sintoma, tiro de canhão… Não adianta a arma, eles sempre aparecem de novo. Porque, claro, em nenhum momento a causa foi encontrada ou tratada.

wackoÉ exatamente assim que acontece com os distúrbios do sistema gastrointestinal também! E engana-se quem pensa que os sintomas aparecerão somente no estômago ou no intestino. Desde resfriados até acne e doenças autoimunes, de uma simples dificuldade de emagrecer até a integridade da sua saúde mental, tudo isso pode ter relação com o que acontece bem aí na sua barriga. Quer mais?

  • Sinusite;
  • Depressão;
  • Ansiedade;
  • Insônia;
  • Dermatites e outros problemas de pele;
  • Enxaqueca;
  • Dores articulares…

A lista de condições que se relacionam com o funcionamento do sistema digestivo não para por aí e também continua a crescer com novas adições cada dia, conforme são publicados todos os dias novos estudos e pesquisas na área. Todo mundo sabe que os intestinos desempenham o papel de absorção de nutrientes e líquidos no nosso organismo, sendo esta função vital para que tenhamos níveis ótimos de energia, assim como os componentes necessários para renovação e manutenção dos nossos órgãos e sistemas – em resumo, a famosa frase “você é o que você come” é, na verdade, “você é o que você come, digere e o que seu corpo absorve e assimila corretamente”. Ou seja, qualquer coisa que prejudicar estas funções, também trará grandes consequências negativas para a saúde. Mas, como falei no início do texto, as funções do sistema gastrointestinal não se limitam a isso!

Aqui estão algumas outras funções, para você começar, hoje mesmo, a enxergar de maneira diferente o papel do seu sistema digestivo:

O cérebro na sua barriga

O sistema gastrointestinal contém cerca de 100 milhões de neurônios, compondo um sistema nervoso complexo, localizado logo abaixo das paredes dos órgãos digestivos – é o chamado Sistema Nervoso Entérico. Há muito tempo já se sabe da sua capacidade de controlar a parte mecânica da digestão, trabalhando os movimentos de mistura e contrações que “empurram” o bolo alimentar ao longo do caminho, além de manter o ambiente bioquímico adequado nas diferentes porções do sistema digestivo, permitindo que o balanço ácido-básico seja o ideal para que as enzimas digestivas trabalharem. Porém, ficam cada vez mais evidentes muitas outras influências que esta intrincada rede neuronal exerce também no nosso bem-estar físico e mental.

gut-brain-connectionAparentemente, nosso humor e bem-estar não são influenciados apenas pela ação dos nutrientes no nosso corpo, mas também diretamente por substâncias produzidas pelo próprio intestino, como neurotransmissores, neuropeptídios e antioxidantes. Imaginem que ele é responsável pela produção maciça, mais de 90%, da serotonina do nosso corpo, o famoso hormônio do bem-estar – o que é que queremos com tanta serotonina sendo produzida no intestino? E não é só ela: tem dopamina, glutamato, noradrenalina, óxido nítrico e diversos outros componentes típicos do sistema nervoso que também são produzidos por lá. Muitos pesquisadores buscam ainda mais explicações sobre quais são os fatores que levam à produção dessas substâncias, assim como também entender melhor as funções que elas exercem no organismo, mas já se sabe que estes compostos agem não só localmente, mas também são transportados via corrente sanguínea e influenciam o funcionamento de muitos outros sistemas do corpo.

 O Sistema Nervoso Entérico também manda constantes mensagens com informações sobre o ambiente e detecta possíveis ameaças e perigos, que comunica diretamente ao cérebro. Esses sinais podem ser imediatamente reconhecidos, gerando a resposta ao estresse, ou podem simplesmente funcionar como uma comunicação, um breve diálogo entre essas duas porções do corpo.

 “E aí, tudo bem aí em cima? Aqui embaixo estamos funcionando normalmente.”
“Que bom. Aqui em cima também não temos nenhum sinal de problema. Tenha um bom dia!”

Conversas desse tipo (ou mais ou menos desse tipo, vai…) acontecem todos os dias, várias vezes, a fim de assegurar que o corpo funcione em um estado ótimo. Os detalhes dessa troca, na maioria das vezes, sequer chegam ao nível da consciência, e seguimos sem nos dar conta de como o intestino e o cérebro são amigos íntimos. Seus sinais se confundem, de tão semelhantes, e um influencia o outro na mesma medida.

Mas essa interação muitas vezes se torna evidente, e você não precisa ser um especialista em neurogastroenterologia (uau!) para percebê-la, basta estar atento. Com certeza conhece aquele “frio na barriga” que aparece em situações de ansiedade ou nervosismo, as alterações de apetite – falta ou excesso – que surgem quando estamos estressados e sabe daquela vontade de comer uma comida gostosa no fim de um dia estressante!

gutCuriosidade: o idioma Inglês dispõe de uma expressão coloquial para se referir a sensações profundas que apresentamos às vezes, as quais temos a tendência de considerar mais intuitivas que racionais. Sabe qual é essa expressão? “Gut feeling”, que pode ser traduzida literalmente para “sentimento do intestino”. Aquele velho e conhecido “não sei por que, mas eu sinto que é isso”. Sim, vários estudos por aí têm defendido que isso não é só coisa da sua cabeça… é também do intestino!

Inimigo íntimo

E não só para regular nosso humor e sensações é que o intestino é tão bem equipado. Você já parou para pensar como o simples ato de comer é bem perigoso? O interior do sistema gastrointestinal é, na verdade, ligado diretamente ao exterior do corpo. Sendo assim, os intestinos, além de selecionar e absorver os componentes da alimentação necessários para a manutenção do bom funcionamento do organismo, também são os responsáveis por decidir quais são os componentes que não podem entrar! Todas as toxinas e microorganismos invasores, como bactérias patogênicas e vírus, precisam ser impedidos, e isso ocorre através de uma ação conjunta do revestimento do intestino, das bactérias benéficas que abrigamos e do sistema imune localizado no sistema gastrointestinal.

o-GUT-BACTERIAEssa história de comer pode ser tão perigosa que, acredite, cerca de 60-70% do nosso sistema de defesa está nos intestinos! Não é incrível? As células do revestimento intestinal apresentam uma organização complexa de junções, proteínas e estruturas que permitem que elas exerçam suas funções de absorção de nutrientes, reconhecimento de substâncias e organismos perigosos, e de barreira mecânica. Não vou entrar em detalhes, pois basta saber que elas devem ficar todas bem coladinhas e, trabalhando junto com esse sistema imune local, identificar e selecionar os componentes que o corpo quer absorver e aqueles que devem ser eliminados.

Além disso tudo, também contamos com a ajuda de alguns trilhões de hóspedes bacterianos, nossa microbiota intestinal, que, além de auxiliar a digestão e absorção de nutrientes, também ajudam a manter o número de bactérias perigosas sob controle, inativam toxinas, se comunicam com as células de defesa, entre outras inúmeras funções, que vão desde regulação de hormônios até produção de neurotransmissores!

É importante dizer que nenhum desses mecanismos atua isoladamente, e as células de revestimento, as células de defesa e as bactérias estão em constante comunicação e interação, trabalhando juntas para fortalecer, desenvolver e manter em funcionamento essa importante proteção do nosso organismo.

r-GUT-BACTERIA-BRAIN-large570Alguém aí ainda acha que é possível manter a ideia ultrapassada de “tubo digestivo”? Acho que algo como “incrível sistema neuro-endócrino-imunológico, local de simbiose com rica microbiota bacteriana, que também realiza e regula nossas funções de digestão e absorção, e que representa um dos maiores responsáveis pela nossa saúde e bem estar” seria uma descrição mais justa e mais próxima da realidade. Chega de desrespeito e, principalmente, chega de maus tratos!

Precisamos refletir sobre como cuidamos dessa porção tão importante do nosso organismo e, para isso, é preciso constatar primeiro que o sistema digestivo, com todas as complexas estruturas e mecanismos que possui, está em contato direto com o ambiente externo, como eu comentei acima. Eu acho essa uma ideia tão fascinante quanto assustadora! E, considerando isso, não posso deixar de questionar: será que damos a ele a devida importância e o cuidado merecido? Pensa comigo… laxantes? Alimentos processados e artificiais? Cigarro, metais pesados e outros compostos poluentes, excesso de álcool, uso indiscriminado de antibióticos e outras drogas, inúmeras toxinas ambientais, aditivos químicos… Tudo isso em contato íntimo com o seu corpo, agredindo o revestimento do sistema digestivo, tudo isso separado da sua corrente sanguínea por apenas uma finíssima camada de células, tudo isso sobrecarregando seu corpo continuamente.

urlE não podemos esquecer as agressões de outra natureza, como a falta de exercícios, noites mal dormidas e o estresse excessivo, todas com capacidade de desregular e prejudicar o funcionamento do corpo em geral, com consequências específicas também no sistema digestivo. São tantas as agressões, internas e externas, que não é de espantar a prevalência de queixas, sintomas e diagnósticos relativos a ele que as pessoas apresentam.

O meu objetivo aqui foi tentar tornar clara e enfatizar a importância da saúde gastrointestinal para nossa saúde e bem-estar de forma geral. Imaginei que não adiantaria vir aqui e enfatizar mais uma vez o “tome probióticos” ou “coma mais fibras” se você não estivesse ciente do quão importante e urgente é a necessidade de se fazer isso ou de ter qualquer outro cuidado nesse sentido. Pretendo, então, voltar a este tema em breve, e também sugerir algumas atitudes simples que podem te ajudar a melhorar a saúde do seu intestino imediatamente!

 

Vídeo que encontrei e que fala tudo isso aí de um jeito bonitinho:

Para saber mais sobre o tema, leia o excelente artigo do Dr. Alexandre Feldman:

Medicina do Estilo de Vida – A Conexão Intestino – Cérebro

6 thoughts on “O intestino – Muito além do que você imagina

  1. Ariela, os livros são:
    . “Síndrome Fúngica – uma epidemia oculta”
    Denise Carreiro
    Luana Vasconcelos
    Maria Elisabeth Ayoub.

    . “Glúten – toxicidade, reações e sintomas”, Denise Carreiro.

    Li também, “Cálcio, na forma, na medida e no lugar certo”, também da Denise que é nutricionista funcional.

    Sim!!! rs Estamos esperando a próxima postagem. Quero muitas mudanças que possam trazer benefícios.

    Obrigada! Abraços!

  2. Olá, Sonia.

    Que sorte a minha ter uma leitora tão disposta a me contar o que acha dos textos e a compartilhar um pouco da própria experiência! Agradeço muito! Depois diz também os nomes dos livros, assim eu já incluo na minha lista de leitura, se já nos os tiver lido. 🙂

    Vou guardar essa sua pergunta para falar um pouco disso na continuação do assunto aqui, pode ser? Obrigada pela sugestão!

    Espero que continue acompanhando o blog e que ele continue servindo para reflexões e mudanças positivas.

    Abraços!

  3. Excelente artigo, Ariela! Eu li 2 livros que me deram uma boa dimensão do que significa o intestino na vida da gente. Um deles fala da toxicidade do glúten e o outro da síndrome fúngica. E agora você vem explicando de uma forma lúdica finalizando com o vídeo que complementou com graciosidade o seu texto. Muito bom aprender assim! Continuarei acompanhando as suas postagens, quero saber mais sobre o funcionamento do intestino. Eu me sinto muito feliz ao colocar em prática o que leio. Vou deixar uma questão que talvez você esteja abordando no próximo post. Leva muito tempo para que a flora intestinal possa se recompor das agressões de alimentos industrializados, toxinas, antibióticos e outros elementos?

    Abraços! Sonia Salim

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *