O estresse e a importância de escolher bem seus leões

Posted on Posted in A relação mente-corpo, Cuidados com a Saúde, Estilo de Vida

Ainda não contei a vocês, mas tenho passado por grandes mudanças na minha vida recentemente. A sensação que tenho é de que não possuo nada que possa chamar de rotina agora, e que as coisas estão se transformando em uma velocidade mais rápida do que consigo acompanhar – em resumo, não estou nem perto de uma “terra firme”, e a insegurança surge de tempos em tempos para me assustar.

 Todos nós já passamos por situações parecidas, acredito… Ansiedade, preocupações, dúvidas e, principalmente, medo são sempre experimentados em momentos de transformação, e ficamos com a impressão de estarmos no limite, prontos para gritar, sair correndo sem rumo ou simplesmente nos esconder embaixo da cama até tudo acabar.

 E aposto que você e todos à sua volta não pensam duas vezes antes de anunciar que é tudo culpa do estresse! Eu sei, eu também faço isso, e um dos pensamentos mais presentes na minha cabeça esses dias é “nossa, estou estressada!”.

pop_art_cartoon_ginger_woman_tearing_hair_out_-_154569740__small_4x3Parando pra pensar, nós somos muito íntimos do estresse, né? Amigos de infância, praticamente. Vivemos comentando sobre ele, dos seus perigos, das coisas que nos deixam estressados, de como conviver com o estresse, de como acabar com ele…Mas será que realmente sabemos do que estamos falando? Quando falamos sobre estresse, seja em conversas diárias ou nos meios de comunicação, quase sempre o tratamos como um conceito inespecífico, algo confuso, e sempre ruim. É uma ideia que já passou a fazer parte do senso comum. Eu mesma sempre encarei o estresse como essa coisa meio indefinida, que pode dizer respeito tanto a fatores externos quanto a sensações internas, um estado que envolve muitas emoções negativas, que pode trazer perigo, e que, acima de tudo, está totalmente fora do meu controle.

 Mas será que realmente entendemos o que é o estresse?

 Já que o estresse é assim tão próximo e presente nas nossas vidas, o mínimo que podemos fazer é tentar conhecê-lo um pouco melhor. Na verdade, tem muita gente tentando fazer isso também! Seja com bioquímica ou psicologia, há uma grande comunidade que quer compreender e caracterizar melhor o que é o estresse, como lidamos com ele e sua relação com o processo de adoecimento. Aqui vou tentar falar um pouco sobre isso, e procurar desvendar mais sobre esse nosso companheiro diário.

 A primeira coisa importante a ser dita é que o estresse não é uma doença. E nem sempre é ruim. Na verdade, eu diria que ele é uma resposta fisiológica e psicológica para experiências potencialmente nocivas, e sua função é adaptar e proteger o corpo contra os agentes causadores dessas experiências. Ou seja, ele, na verdade, é muito útil. Para deixar ainda mais claro, vou evitar me referir a este processo somente como “estresse”, então podemos chamar os fatores nocivos ou perigosos de agentes estressores, e a reação que o nosso corpo apresenta a eles de resposta ao estresse.

 A situação acontece mais ou menos assim:

  • Você está sozinho em casa e alguém bate na porta. Você vai abrir achando que é apenas o carteiro, mas, na verdade, é um leão faminto pronto para te atacar. A parte do cérebro mais evoluída, o córtex, reconhece esta situação através de diversas redes de neurônios que se relacionam e conclui que você, claro, está em perigo.
  • Assim que isso acontece, o córtex ativa uma porção mais rudimentar do cérebro, chamada sistema límbico, que contém as estruturas que comandam as emoções e as funções vitais, com destaque para a amígdala cerebral e o hipotálamo.
  • A ativação dessas estruturas vai acionar o sistema nervoso autônomo e estimular a liberação de adrenalina, gerando alterações como batimentos cardíacos mais fortes e acelerados, pupilas dilatadas, aumento da produção de suor, paralisação da digestão, elevação do açúcar no sangue para dar energia, direcionamento do sangue para os músculos e órgãos vitais… Enfim, mecanismos que te ajudariam em uma situação em que houvesse necessidade de correr ou lutar com o suposto leão faminto.
  • O hipotálamo, que também foi ativado pelo córtex, comanda uma série de reações que culminam com a liberação do hormônio cortisol – o famoso hormônio do estresse -, que é capaz de alterar profundamente o metabolismo, as reações celulares, influenciar o sistema imunológico, aumentar os níveis de açúcar no sangue (para dar mais energia!), entre outras ações que também preparam o corpo para situações extremas.
  • Esses agentes hormonais, com destaque para a adrenalina e o cortisol, são os principais responsáveis por gerar no corpo a resposta aos agentes estressores identificados pelo nosso cérebro.
  • Assim, com o corpo pronto para o confronto, você é capaz de se livrar do perigo, sair correndo de casa, chamar os bombeiros e se salvar. Quando já está de volta em casa, sem leão e com a porta bem trancada, o cérebro reconhece a sensação de relaxamento e faz com que o organismo retorne ao seu estado normal.

Angry-LionNão se preocupe, não é necessário entender detalhadamente essa sequência de acontecimentos fisiológicos! Basta perceber que, diante de um agente estressor, o corpo sai do seu equilíbrio bioquímico e se transforma totalmente, com o objetivo de nos proteger do perigo. E isso tudo, veja bem, nada mais é do que um mecanismo evolutivo. Sem a resposta ao estresse pronta para acontecer e garantir a nossa sobrevivência, eu não estaria aqui hoje escrevendo nada disso. E você, certamente, não estaria aí lendo. O leão venceria, é claro. É possível concluir que a resposta ao estresse foi muito útil durante toda a nossa evolução.

E por que, hoje em dia, encaramos a ideia de estresse de forma tão negativa?

Bom, a resposta pra isso é bem simples. Essa reação aguda do nosso corpo ao agente estressor, que ocorreu quando encontramos o leão faminto na porta, foi desativada assim que nos encontramos relaxados novamente, ela só serviu para nos ajudar a contornar o perigo. E a ideia, claro, é que ela ocorra apenas ocasionalmente, já que não esperamos visitas diárias do leão. A constatação que responde a pergunta é que, atualmente, nós costumamos enfrentar algumas dezenas de leões todos os dias.

insecureAcordamos preocupados com o horário, comemos mal, estamos sempre com uma lista de afazeres quilométrica, prazos apertados, compromissos que se acumulam, um emprego insatisfatório, brigas familiares, preocupações financeiras… Como se não bastasse tudo isso, ainda criamos mais alguns: temos que conseguir comprar a-que-le carro, nos cobramos emagrecer rápido, não podemos repetir a roupa, o sexo tem que ser incrível, as férias têm que ser perfeitas e é preciso estar com a vida totalmente resolvida até os 35 anos. No máximo. Reflitam comigo, como é possível estar relaxado nessas condições?

Atualmente, nós não damos espaço para a resposta ao estresse desligar. E isso pode ser muito perigoso.

Por mais que nenhuma dessas coisas citadas acima apresente, de fato, um perigo urgente, o cérebro reconhece nossas sensações de medo, ansiedade, irritação e tristeza em relação a tudo isso e liga a resposta do estresse, porque é a forma que o nosso corpo tem para lidar com essas percepções.

Uma resposta prolongada (ou crônica) ao estresse, com os níveis de cortisol constantemente elevados, pode trazer muitas consequências negativas para a nossa saúde. Algumas delas são:

  • Insônia.
  • Cansaço constante.
  • Elevação do açúcar no sangue e aumento da resistência à insulina – aumento do risco de diabetes.
  • Ganho de peso, especialmente com aumento da gordura abdominal – aumento do risco de obesidade.
  • Perda de massa muscular.
  • Desejos por comidas ricas em gordura e açúcar.
  • Dores musculares e dores de cabeça.
  • Redução do interesse sexual.
  • Dificuldade de concentração e memória reduzida.
  • Ansiedade e tristeza
  • Problemas gastrintestinais e desequilíbrio da flora intestinal.
  • Diminuição da resposta das células de defesa e dos anticorpos – aumento do risco de infecções.

Devido a estes e outros fatores, há cada vez mais estudos relacionando os níveis cronicamente elevados de cortisol com a predisposição para gripes e outras infecções, doenças cardiovasculares, diabetes, osteoporose, depressão e, até mesmo, câncer. A elevação prolongada dos níveis dos hormônios do estresse “desliga” a capacidade que o nosso corpo possui de se defender e de se reconstituir, fazendo com que seja muito mais fácil adquirir e desenvolver doenças. E, claro, muito mais difícil de combatê-las.

E o pior é que essa resposta prolongada ao estresse é capaz de prejudicar o nosso organismo através destes fatores citados, como também faz com que não tenhamos qualquer interesse ou disposição para cuidar da saúde. Certamente fica muito difícil elaborar uma refeição nutritiva ou fazer exercícios quando, além de todos os problemas, você ainda se sente sem energia, desanimado, irritado ou triste.

Mas o que fazer quando estamos tão expostos a esse ambiente intensamente estressante, com tantos fatores que fogem ao nosso controle?

holding cat

É bem verdade que nem sempre podemos controlar as situações que acontecem conosco, mas é possível, sim, exercitar a forma com que respondemos a essas situações. É claro que, ao se deparar com um leão faminto na porta da sua casa, você não vai parar para raciocinar por que ele está ali ou para escolher se ficará ou não ansioso e preocupado. Para sobreviver, a resposta ao estresse tem que ser intensa e imediata. Mas nem tudo precisa ser visto como um leão faminto! É possível refletir e encontrar novas formas de lidar com diversos problemas na nossa vida, seja uma briga ou um emprego ruim, pois sempre temos a opção de rever a forma com que encaramos a situação, de controlar melhor como nos sentimos em relação a a ela.

No fim das contas, acho que o que precisamos é aprender a escolher melhor nossos leões.

Na minha opinião, a principal atitude que podemos tomar é adquirir consciência de como respondemos às diversas vivências e experiências que a vida nos proporciona. E esse poder está com você.

Sites e textos interessantes para quem quer saber mais:

Estresse –  Como ele abala as defesas do corpo?

The Cortisol Connection

Imagens: Reprodução Google Imagens

2 comentários em “O estresse e a importância de escolher bem seus leões

  1. Oi, Eduarda!

    Nossa, obrigada pelo seu comentário cheio de elogios e coisas boas. <3 Fiquei super feliz que gostou dos textos!

    Espero que continue acompanhando aqui. 🙂

    Beijo!

  2. você é ótima! sua idéia é ótima, as questões que você traz, e a noção de cada pessoa é uma pessoa, coisa que TODO PROFISSIONAL deveria ter (e pessoa, também, CLARO hahaha, é só porque como profissional você praticamente aprende a generalizar). os textos também são mtbem escritos.
    enfim… parabéns e obrigada! 🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *