Eu vou ser feliz quando…

Posted on Posted in A relação mente-corpo, Cuidados com a Saúde, Estilo de Vida

Quando o quê? Com certeza você tem alguma sugestão para completar ali a frase, algo decisivo para alcançar a felicidade, a gente sempre tem.

Mas, antes de falar disso, preciso ser honesta: eu não estava com ânimo para escrever no blog esta semana. Na verdade, eu nem tinha em mente um assunto ou acontecimento sobre o qual gostaria de falar, nada, nada. Até tenho uma lista com alguns temas selecionados, coisas que julgo interessantes ou relevantes, mas só conseguia olhar para ela e pensar que tudo aquilo ali era muito chato. E isso, claro, é mentira. Eu acho todos os assuntos ali muito legais, só estava me faltando a disposição para escrever sobre eles. Veja bem, é muito comum ouvir por aí que o ato de escrever vem de criar o hábito, e certamente é, mas para mim também tem muito de inspiração. E, apesar de ter escrito justamente sobre este fato no primeiro texto deste site, eu, aparentemente, esqueci completamente dele.

“Preguiçosa!”
“Como você vai ser capaz de alcançar outros objetivos se não consegue escrever um textinho qualquer?”
“Não pode ser tão difícil! As pessoas escrevem livros, sabia? Será que você não vai conseguir escrever alguns parágrafos?”
“Você é um desastre mesmo…”

Para deixar claro que eu precisava escrever, minha mente escolheu  uma estratégia que não era nem um pouco gentil comigo mesma. Quem foi que disse a essa vozinha na minha cabeça que o meu valor depende da minha capacidade de realizar alguma tarefa? Eu não diria essas coisas a nenhuma outra pessoa no mundo, então por que me permiti falar assim comigo mesma? Pensando bem agora, acho que eu nem notei o que estava fazendo. Fiquei uma semana nesse monólogo de insultos e desaprovação, não deixei passar um dia sequer sem me lembrar de que eu estava “falhando”, e tudo isso pareceu tão natural para mim que eu quase não percebi. Socorro!

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Chega a ser irônico que, logo após falar sobre o poder da nossa mente, eu tenha caído tão rápido nessa armadilha de bullying mental. Aliás, fui vítima também da síndrome do “eu vou ser feliz quando…”, que dá título a este post, e é conhecida também como “prazo para começar a ser feliz”. Ah, você não sabia que era uma síndrome? Pois é. Não bastasse ter passado esses dias ansiosa e estressada, recebendo todo tipo de ofensa e cobrança de mim mesma, eu também decidi que as coisas só dariam certo quando eu escrevesse o tal artigo, e não me permiti nada diferente disso até ter a certeza de que havia cumprido meu objetivo. Não tive permissão para fazer coisas divertidas ou interessantes, afinal, tinha que focar no texto. Ou melhor, na não existência dele. E aí tinha início a maravilhosa sinfonia de “você não é boa o bastante”, que gerava ainda mais estresse, e eu não me permitia fazer nada que pudesse me distrair disso e… nossa, eu consigo ser realmente uma ditadora comigo mesma. E nunca tinha parado para pensar nisso.

O que eu acabei de descrever, senhoras e senhores, é uma combinação perigosíssima entre estabelecer um prazo para alcançar a felicidade e torturar a si mesmo por ainda não ter conseguido, o que, aliás, tem base nas nossas já velhas conhecidas culpa e punição. Mas é verdade que eu não sou a única que me encontro nessa situação, concorda? Você mesmo deve ter se identificado com esse comportamento de autocrítica e, no início do texto, definido com precisão o que está faltando para você, finalmente, alcançar a felicidade perfeita e eterna. Mas não se sinta mal, também não somos só nós aqui, a síndrome do “eu vou ser feliz quando…” tem proporções mundiais! Seres humanos são experts em criar metas para atingir a felicidade.

“Eu vou ser feliz quando… escrever o texto para o blog.”
“… perder 5Kg.”
“… conseguir aquela promoção.”
“… fizer a viagem dos meus sonhos.”
“… aprender a falar francês.”
“… encontrar o amor da minha vida.”
“… participar de um campeonato de kitesurf.”

Bom, eu não sei se existe campeonato de kitesurf, mas não importa muito, porque tenho certeza que você entendeu. Pode escolher qualquer coisa para colocar aí, qualquer coisa mesmo, que com certeza alguém já pensou. Pode até escolher a sua meta.
Sem títuloPor outro lado, eu aposto que você não conhece ninguém que pode dizer “Aí, eu entrei naquela calça 38 e fui feliz para todo o sempre. Fim.”, conhece? Novos problemas sempre surgem, a alegria de alcançar um objetivo específico some mais rápido do que gostaríamos (às vezes, nem aparece) e a insatisfação logo volta a dar as caras, nos fazendo criar novas metas. Não me entenda mal, não estou dizendo que é ruim ter metas! A ambição é essencial para o nosso crescimento, e é saudável buscar novas formas de evoluir e melhorar, o problema é depositar toda a nossa expectativa de felicidade em um objetivo isolado, e também o problema é o quanto nos massacramos neste processo.

Free_Your_Mind-CDRyanInevitavelmente, chegou um momento em que eu cansei de encarar a minha lista de tarefas, cansei da tortura mental, e resolvi ir ler um livro, que era a primeira coisa que eu queria fazer após terminar todos os compromissos. Ora, vejam só, bastou me permitir dar uma pausa no trabalho mental de me criticar e, pouco depois, pude ver com clareza o que estava acontecendo. E aí vim aqui escrever este texto. Minha mente só precisava da oportunidade de sair da prisão de cobranças e ofensas, e eu só precisava da oportunidade de aproveitar o meu dia exatamente como ele estava.

Não tenho a pretensão de finalizar com alguma estratégia definitiva para alcançar a felicidade, por favor, eu sei tanto quanto você. Mas estamos há muito tempo sofrendo da síndrome do “eu vou ser feliz quando…”, definindo prazos para alcançar a felicidade, vivendo de culpa e punição, e eu não acho que tem funcionado. Quando estabelecemos uma meta perfeita para sermos felizes, colocamos nossa vida no modo de espera, ficamos para sempre aguardando o momento de, enfim, chegar “lá”. O problema é que “lá” não existe, “lá” é um conceito que está sempre mudando, é como tentar alcançar o fim do arco-íris ou a linha do horizonte.
rainbowQuando se fala em cultivar pensamentos positivos e de exercitar a nossa mente com pensamentos de gratidão e aceitação, muitos acham que é pura fantasia, mas consideram perfeitamente aceitável a tortura mental a que nos submetemos diariamente. Será que não está na hora de rever este padrão?

E se, a partir de hoje, você desse uma chance à ideia radical de que é possível ser feliz agora? Exatamente como está, sem conquistas a mais ou quilos a menos.

happyA partir do momento em que você dá a si mesmo a permissão para se sentir bem, as metas deixam de ser um peso e passam a ser ferramentas de aprendizado e crescimento. Precisamos aceitar a ideia de que não haverá um acontecimento capaz de nos dar a felicidade eterna e perfeita, vamos acertar e errar, perder e ganhar, e o mais importante é aprender a cultivar a felicidade no momento presente.

Este texto não foi exatamente o que eu estava pretendendo escrever, não foi sobre o tema que eu havia previsto, mas foi exatamente o que eu precisava. E fiquei satisfeita. Espero que ele possa servir para você como serviu para mim.

Imagens: Reprodução Flickr
Reprodução cdryan.com

9 comentários em “Eu vou ser feliz quando…

  1. Olá, Bethania.

    Li o seu comentário e entendi como se sente. Por vezes, quando nos sentimos muito confusas e angustiadas, é realmente complicado encontrar um caminho no meio de tantos pensamentos e sentimentos que surgem. Não se sinta só, acho que todas já passamos por momentos assim, e acho que o ideal é justamente pedir ajuda. Pode ser de pessoas próximas, amigos, familiares ou mesmo de um profissional que esteja alinhado com o que você busca e deseja na sua vida.

    Espero que consiga clarear sua mente e quero que saiba que, se precisar, basta entrar em contato comigo para conversarmos melhor e saber se eu posso te ajudar de alguma maneira.

    Obrigada pelo seu comentário e pela gentileza. 🙂

    Abraços!

  2. Bom,pelo pouco que tenho lido tenho gostado bastant de seus textos, me ajudam a refletir, tenho estado em uma constante busca pela felicidade, mas não tenho conseguido achar ainda um ponto que eu realmete queira mudar, são tanta ideias que vem , tantas culpas, tanta dor e no meio desse furação que é a minha mente eu às vezes me vejo num beco sem saída, num túnel sem luz, bom me sinto como se vagasse em vão, dando voltas e masi voltas em torno da mesma coisa sem seguer sair do lugar,já nem sei mais o que faço, estou numa busca não só pela felicidade mas por ajuda por alguém que me entenda e não fale só o que eu quero ouvir e sim o que preciso.

  3. Oi, Amanda.

    Obrigada pelo seu comentário e por compartilhar um pouquinho da sua história! Gostaria de dizer que, apesar de ser um pouco frustrante pensar em como nos agredimos e colocamos uma pressão excessiva sobre nós mesmas, não devemos deixar que essa percepção nos impeça de seguir em frente com alegria. Ela, na verdade, é uma ferramenta muito valiosa, pois agora você já sabe quais são os caminhos que não quer tomar e, assim, fica muito mais fácil e tranquilo tomar a direção que você deseja.

    Espero que a gratidão continue presente aí. <3

    Abraços,

    Ariela.

  4. Oi, Adriana!

    Muito, muito obrigada pela doçura do seu comentário. 🙂
    Às vezes, realmente surge aquele desânimo, e eu fico me questionando se o que eu escrevo realmente alcança as pessoas e, ainda mais, se contribui de alguma forma. Suas palavras transmitem exatamente o que eu preciso pra continuar sempre. Muita gratidão!

    Fico muito feliz em saber que o texto pôde te fazer ter um olhar diferente sobre as frustrações e aqueles momentos em que estamos mais “pra baixo”. Eles são perfeitamente normais, e podemos desejar melhorar, mas não podemos deixar que a busca pela satisfação/felicidade se torne uma prisão.

    Espero que continue, sim, acompanhando o site!

    Abraços,

    Ariela.

  5. Muito obrigada. Precisava mesmo ler isso hoje. Você descreveu exatamente o meu comportamento durante esse ano. Vamos viver mais, né? 🙂

  6. Passei muito tempo da minha vida acreditando nisso. Estabeleci algumas metas (e diga-se de passagem, a principal delas era emagrecer) e decidi que só seria feliz “quando…” e sabe o que aconteceu? Hoje passados alguns anos e depois de alguns acontecimentos que me fizeram sofrer, percebi que há muito tempo eu poderia estar onde queria estar, e alcançar essas metas seria um caminho natural, e não o tortuoso que percorri, me punindo dia após dia, por não conseguir fazer com que acontecessem todas aquelas coisas que eu desejava. E eu não vivi o tempo presente, perdi preciosos momentos, deixei de ser feliz, tentando encontrar a tal felicidade “perfeita e eterna” que nós achamos que existe. Hoje eu só queria ter começado bem antes a fazer o que estou fazendo agora, e quem sabe, se eu não tivesse perdido tanto tempo me punindo, hoje eu já estaria muito mais longe que já estou. Aprendi tudo isso através da dor, infelizmente. Ainda estou tentando me recuperar, mas consciente de que não quero esperar que passem mais alguns anos e me lamentar por não ter sido feliz agora, com o que tenho.

  7. Olá Ariela!

    Muito bom esse texto, aliás muito bom assim como todos os outros, acho que até emagreci uns quilinhos nesses últimos dias, pois depois que através do site personare cai aqui no seu blog, não deixei mais de ler as matérias aqui relacionadas e tenho passado mais tempo me instruindo do que comendo..rsrs..não tenho problema com obesidade, mas me vejo em muitos dos seus textos por não me alimentar direito e sempre me cobrei sobre isso, mas aprendi que essa cobrança só nos leva a mais cobranças, sou uma pessoa otimista e na maioria das vezes de bem com a vida, me sinto uma pessoa feliz e grata por tudo que a vida me deu, mesmo achando que ainda mereço mais, mas em muitos momentos assim como todo ser humano normal, caio numa certa frustração e ler esse texto me fez enxergar as coisas de maneira diferente, que estou no caminho certo, só preciso ser mais tolerável comigo quando não estiver ¨num dia bom¨.
    Amei seu jeito simples de escrever os textos, me sinto como se estivéssemos batendo um papo e vc me explicando o funcionamento dos intestinos e como eles são importantes para nossa integridade física e mental..rsrs
    Bem, é isso, gostaria que vc soubesse que ganhou uma admiradora incondicional, quero parabenizá-la pelo maravilhoso trabalho e pedir para que nunca desista dele, pois com certeza todos que aqui chegarem serão ajudados de alguma maneira.

    Um grande abraço! Adriana

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