A relação mente-corpoCuidados com a SaúdeEstilo de Vida

Você sabe usar o poder da mente?

Pronto, aposto que agora tem gente achando que eu fiquei maluca mesmo!

Professor Xavier (X-Men). Ainda não foi dessa vez.
Professor Xavier (X-Men). Ainda não foi dessa vez.

Falar do poder da mente pode parecer para alguns uma coisa muito estranha ou mesmo fruto de ideias fantasiosas, eu sei. Eu mesma já pensei exatamente assim. Tendo me formado em um ambiente totalmente baseado nas sagradas evidências científicas, eu aprendi que a possibilidade de modificar nossa vida e nossa saúde simplesmente com o pensamentos deveria ser considerada algo duvidoso e improvável, e eu sequer me incomodava em me informar sobre o assunto. Hoje eu vejo que era pura ignorância minha. Quando falamos de poder da mente, nossa cabeça tende a pensar em telecinese, desmaterialização de objetos e outras coisas dignas de acontecimentos ditos sobrenaturais. Não, ainda não foi dessa vez que eu vim aqui ensinar a ter poderes X-Men, mas vou falar de algo tão interessante quanto! O poder da mente no contexto em que estou tratando é algo fisiológico, bioquímico, algo que está presente todos os dias na nossa vida. Ah, e tem evidências científicas também, para quem se interessar. Apesar de tudo isso, o mais comum é não nos darmos conta da existência dele.

Pensem comigo… A maioria de nós conhece aquela pessoa que, apesar de todos os hábitos de vida mais reprováveis do mundo, tem uma saúde vibrante. Ou, certamente, está a par daqueles casos de casais de velhinhos em que um morre quase imediatamente após o outro, mesmo não sofrendo de nenhuma doença ou condição de saúde que ameaçasse a vida. Também já ouviu falar de, ou mesmo possui, um sintoma que só aparece nos momentos de estresse, como aquela dorzinha de cabeça ou desconforto no estômago que surgem em momentos de tensão e desaparecem tão logo voltamos a ficar relaxados e tranquilos. Alguns responsabilizariam a genética, a sorte ou o acaso, e não quero excluir nenhuma possibilidade, mas crescem evidências de que situações como estas têm uma coisa muito importante em comum. Sabe o que é?

O poder da nossa mente.

reproducao1Como exemplo, vamos considerar o efeito placebo… todo mundo já ouviu falar, não é?

Há séculos, o placebo – um tratamento supostamente desprovido de capacidades terapêuticas reais- é usado como comparativo para drogas ou terapias que precisam ter sua eficácia testada. Para que elas sejam consideradas realmente eficientes, seu uso deve apresentar resultados comprovadamente melhores do que o uso do placebo. O curioso é que, nesses estudos, uma parte das pessoas que está usando o placebo apresenta resultados esperados para a droga ou terapia verdadeira em questão, por exemplo: elas sentem melhoras dos sintomas, remissão de doenças e, inclusive, apresentam alguns efeitos colaterais do suposto tratamento utilizado, mesmo que o “remédio” recebido tenha sido apenas uma pílula de açúcar.  Um monte de gente melhora usando uma pílula inerte e há até mesmo histórias de mulheres que perderam o cabelo após uma sessão de quimioterapia falsa… mas sabe qual é a única conclusão que é tirada desses estudos?

“Bom, essa droga X não é eficaz, porque as pessoas que usaram o placebo melhoraram na mesma proporção que o grupo que usou o remédio.” Fim.

placeboTudo bem, a droga X não serve, é uma verdadeira pena, mas por que as pessoas do grupo que usou apenas o placebo melhoraram? O que exatamente levou algumas pessoas que não estavam usando nenhum tipo de tratamento a experimentar os efeitos, bons ou ruins, de quem estava? Aparentemente, foi o cuidado dispensado a elas, a esperança de que ia dar certo, o apoio e a confiança naquele tratamento que criaram o ambiente ideal para a manifestação desses resultados. Em outras palavras, os resultados só aconteceram porque essas pessoas acreditaram que eles aconteceriam.

No caso do efeito placebo, há muitos estudos voltados a entender seus mecanismos e efeitos. Mas fora da literatura científica, histórias de curas inesperadas, dores que aparecem e desaparecem sem maiores explicações e outros sintomas dos quais ninguém consegue encontrar a causa se acumulam em livros, artigos e corredores de hospitais. Não seriam essas ocorrências, no mínimo, interessantes para se discutir?
Há uma crescente área de estudo dedicada só à pesquisa sobre a relação mente-corpo, a qual, por acaso, já é conhecida há alguns milhares de anos e sempre esteve presente na abordagem de medicinas tradicionais. Nela, são consideradas as formas em que fatores mentais, emocionais, sociais e espirituais contribuem para a saúde, bem como maneiras de aplicar esses conhecimentos e obter o máximo benefício deles. Infelizmente, este conceito ainda está muito restrito às práticas chamadas alternativas ou complementares, e, como bem sabemos, na prática médica convencional pouco se fala na influência que nossos pensamentos e crenças exercem na nossa saúde.

4000094_endocrine_systemApesar de ter convivido com essa segregação entre mente e corpo durante muito tempo sem estranhar, hoje eu encaro como um grande contra-senso! Como é possível ignorar a íntima conexão que existe, e encarar o corpo e a mente como entidades distintas e separadas? Já comentei sobre isso anteriormente, mas é um conceito tão simples e tão esquecido, que é preciso falar de novo: mudar seus pensamentos pode, de fato, mudar a forma com a qual o cérebro se comunica com o resto do corpo. Isso ocorre porque o centro de armazenamento e controle das emoções, uma porção bastante rudimentar do cérebro, tem ação reguladora direta no nosso sistema endócrino e no sistema nervoso autônomo. Ou seja: seus pensamentos definem, em parte, que hormônios serão liberados na corrente sanguínea, além de influenciarem a ativação do sistema nervoso autônomo, responsável por coordenar as nossas funções mais básicas e nossas respostas a experiências sensoriais do ambiente.

Há um mundo de neurotransmissores, hormônios, citocinas e neuropeptídios que se ocupam de traduzir nossos pensamentos em respostas endocrinológicas, imunológicas e neurológicas! Quão incrível é isso?

7972943734_a013b985ce_bEntão vamos considerar alguém que odeie o próprio trabalho.  A mente consciente reconhece e elabora racionalmente quais são os problemas dessa situação, e entende por que você se sente mal em relação a ela, mas o nosso cérebro rudimentar não sabe fazer isso. Ele tem características ancestrais e se preocupa com a sua sobrevivência, responde a instintos, e só sabe interpretar as coisas de maneira dualista, como ameaça ou não-ameaça. Não importa se é um leão faminto ou se é o seu emprego desagradável: a partir do momento em que você tem pensamentos negativos em relação a alguma coisa, seu cérebro rudimentar vai encará-la como algo ruim e acionar uma situação hormonal e neurológica de estresse, para que você possa se livrar dessa ameaça.  É a famosa situação de luta ou fuga, o “bater ou correr”.

O grande problema dessa situação é que o cérebro acredita que você não vai precisar de mecanismos que cuidam da homeostase (o equilíbrio natural do organismo) quando está se preparando para uma briga ou uma escapada, e daí ele “desliga” algumas funções do corpo, como o sistema imunológico, a digestão e absorção de nutrientes e os mecanismos de reparo inerentes das nossas células. Se isso acontecesse só quando fôssemos fugir de um leão feroz, seria realmente útil e não geraria grandes consequências, já que não é algo que fazemos todos os dias, mas e quando é em resposta a um emprego ruim? Ou a alguma relação amorosa desagradável? Problemas financeiros ou familiares? Imagine o número de consequências indesejáveis que viver sempre no limite, em um contexto de tensão, pode trazer ao organismo.

stressedA notícia boa é que, da mesma maneira que crenças e pensamentos negativos persistentes levam o corpo a um estado hormonal e neuronal crônico de estresse, o oposto também parece ser verdadeiro! Apesar de ser menos estudada do que a resposta de estresse, a resposta de relaxamento vem cada vez mais sendo considerada uma ferramenta útil na busca do bem-estar e prevenção de doenças. Quando pensamos em um estilo de vida saudável, as primeiras coisas que consideramos são a alimentação, os exercícios físicos e um sono de qualidade, voltados principalmente ao bem-estar físico, mas quase sempre falhamos em lembrar as atividades que cuidam da saúde da nossa mente. A grande verdade é que nenhum suco verde vai dar conta dos prejuízos que uma vida cheia de estresse pode trazer! E, uma vez que a mente e o corpo possuem relação tão íntima, não demora muito para que o estresse se transforme em algum distúrbio físico.

feetO ideal é ir direto à fonte do stress e tentar minimizá-la bastante, ou mesmo eliminá-la da sua vida. Aí você diz: “Ah tá… falar é muito fácil!”. E eu concordo com você. É claro que nem sempre é possível largar o emprego ruim ou sair daquela relação que te faz mal, mas existem atitudes e técnicas capazes de contrabalançar os efeitos do estresse ao tranquilizar a nossa mente.

Meditação, Yoga, Tai Chi, Emotional Freedom Technique (EFT) e o hábito de afirmações positivas estão entre as mais conhecidas, mas não é preciso que seja uma técnica estruturada para obter os benefícios dessa prática! Já ouviu falar que rir é o melhor remédio? Este não é um ditado comum por acaso, ele é a mais pura verdade! O relaxamento restabelece o equilíbrio natural do corpo e ativa seus mecanismos inerentes de cura e reparação de danos, auxiliando a manutenção do bem-estar e da saúde. Dançar, cozinhar, brincar com seu animal de estimação, tocar um instrumento, desenhar, rezar, fazer uma caminhada, abraçar uma árvore… praticamente qualquer atividade que te faça sentir bem-estar e relaxamento vale como uma forma de melhorar e proteger a saúde. E são tantas as opções que você só precisa escolher sua favorita!

Sem títuloPensamentos de medo, ansiedade, raiva, frustração, preocupação ou alegria, satisfação, relaxamento e otimismo mexerão com o nosso corpo, seja qual for o motivo de existirem. Entender que nossos pensamentos são capazes de influenciar a saúde pode ser algo assustador, pois significa que temos a responsabilidade de cuidar para que nossa mente seja um ambiente positivo, mas acho que, ao mesmo tempo, é uma possibilidade muito poderosa – ao invés de entregar o seu cuidado totalmente nas mãos de alguém que você considera mais capaz ou competente, imagine só pensar que essa capacidade sempre esteve bem aí nas suas mãos. Ou na sua cabeça.

Para ler mais sobre o assunto:
Mind-Body Medicine
Europe Pubmed Central – The psychosomatic network: foundations of mind-body medicine
Scientific American – How Happiness Boosts the Immune System
The construct of control in mind-body medicine: implications for healthcare

Imagens: Reprodução Flickr
Reprodução Google Images
Reprodução X-Men Animated Series (2000)

6 thoughts on “Você sabe usar o poder da mente?

  1. Olá. Tudo bem? Primeiramente gratidão pelo conteúdo. Eu adora aprender sobre esse assunto e você vem postando artigos de grande qualidade. Foi ai que comecei a seguir o teu blog. Parabéns pelo artigo ele esta magnifico.
    <<>>

  2. Olá, Maria.

    Uau, imagina a minha cara ao ler um comentário assim? Fiquei surpresa e muito, muito feliz. Eu que agradeço pela gentileza de vir aqui me contar isso. A minha vontade de fazer este trabalho surge e permanece por saber que tem alguém aí do outro lado, que se sente melhor apenas por me ler.

    Muito obrigada!

  3. Cara Ariela,
    seus conselhos mudaram totalmente minha vida
    hoje me sinto muito melhor.
    Obrigada por compartilhar seus conhecimentos.
    Maria Aparecida

  4. Nossa, Lilian, me enchi de alegria e gratidão ao ler seu comentário! Muitas vezes me questionei se seria a melhor ideia iniciar o blog e escrever sobre saúde assim, da maneira que eu gosto e como sempre fui. Mas acho que tudo direciona a um mesmo objetivo: simplicidade, inclusive na comunicação. Fico feliz em saber que tem notado melhoras em você, e também feliz porque eu pude contribuir. Muito obrigada pelo comentário e por acompanhar meu trabalho! Abraço. 🙂

  5. Ariela, AMO o seu blog! E’ muito dificil achar um profissional que escreva de forma tao acessiva e interessante. Adoro cada texto e venho melhorado cada vez mais mentalmente e fisicamente graças tb aos seus conselhos. Obrigada e continue assim, sempre estou por aqui! Beijos

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