A relação com a comidaAlimentaçãoEstilo de Vida

Ensaio sobre a moral (da comida?)

shhhhComida do bem x comida do mal

 É mentira, eu não sou nenhum Voltaire e não vou escrever um grande ensaio sobre a moral, só queria fazer uma gracinha. Porque, sim, eu acho engraçado falar de moral quando estamos discutindo sobre alimentos e comportamentos alimentares. A origem do termo “moral” recai sobre o comportamento humano, atitudes e costumes que podem ser classificados como certos ou errados, permitidos ou proibidos – morais ou imorais -, de acordo com valores culturais de uma determinada sociedade. A moral serve para guiar nossas condutas em relação ao outro, para dizer que violência é ruim e que roubar é errado, ela evolui para reger a convivência social, mistura-se com a ética, serve de substrato para as leis. Mas comida, gente, é apenas comida. Classifica-la como boa ou má é uma ideia absurda, na minha opinião.

CupcakeE não estou falando de considerar imoral comer animais ou comer durante algum tipo de jejum religioso, porque aí já estamos entrando em outra discussão, eu estou falando simplesmente de comer chocolate. Ou batatas fritas. Ou sorvete. Que, claro, são todas comidas muito más, e consumir qualquer uma delas hoje em dia se aproxima do pecado. Aliás, se fôssemos reescrever o Pecado Original, já que estamos falando de grandes obras por aqui, Eva provavelmente teria comido um cupcake, esse bolinho terrível de cobertura açucarada que exerce domínio sobre os seres humanos. Está meio difícil entender o que quero dizer? Eu entendo, talvez essa minha conversa sobre moral e comida não esteja fazendo muito sentido. Vou transcrever aqui um depoimento traduzido de um fórum do qual faço parte, em que mulheres se reúnem para desabafar sobre o que sentem diante do caos das dietas e da magreza, para tentar esclarecer um pouco as coisas:

“Estou péssima hoje. O dia foi ruim e comi alguns Snickers*. Eu sei tudo que preciso fazer para me alimentar corretamente, não entendo por que não consigo fazer. Por que sou tão fraca?”

Foi imediatamente após ler isso que tive vontade de falar deste assunto aqui no blog, e assim surgiu esse texto. Não sei sobre vocês, mas depoimentos como este me atingem diretamente. Talvez por falarem de algo que já me foi tão próximo, que é esta sensação de estar errada, de ter vergonha, de ser uma pessoa inferior ou de não ter força de vontade simplesmente baseada em uma escolha alimentar. Deixo claro: eu não estou dizendo que não precisamos diferenciar os alimentos e escolher os que julgamos melhores para o nosso organismo e nossa saúde, na verdade, defendo sempre isso. Precisamos de pessoas que estudam estes alimentos, de pessoas que lutam para termos comida nutritiva, de pessoas que dedicam a vida a ensinar outras pessoas a fazer escolhas alimentares saudáveis. Porque um alimento pode ser mais ou menos nutritivo do que outro. Pode ser rico em gordura ou pobre em carboidratos, pode ser orgânico, pode ser frito, natural, cheio de vitaminas, pode ser industrializado ou feito em casa. E hoje em dia nós sabemos que alguns destes podem contribuir para melhorar a saúde da maioria das pessoas, enquanto outros podem ser prejudiciais a longo prazo, assim como alguns têm mais probabilidade de levar ao ganho de peso ou induzir o nosso corpo a comer em excesso, entre outras inúmeras consequências. O que não precisamos é de pessoas determinando regras, não precisamos da mídia categorizando os alimentos como vilões ou mocinhos, não precisamos de ninguém definindo o que é universalmente bom ou ruim na alimentação. Em resumo, não precisamos de uma Polícia da Comida, porque se há algo que ela não pode ser é “certa” ou “errada”. É apenas comida.

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*Snickers

A partir do momento em que você classifica uma comida como ruim ou inferior, por associação, você julga quem a consome como uma pessoa ruim ou inferior. Se você julga uma comida como boa ou correta, por exclusão, você está julgando quem não a consome como ruim ou incorreto. É uma ofensa não só à moral dessa pessoa, mas aos gostos, às necessidades e aos hábitos alimentares que ela leva, sejam eles por escolha ou necessidade. Mesmo que você diga isso com a melhor das intenções, ainda é um julgamento de valor e pode trazer consequências que você não imaginaria. A adolescente do depoimento, por exemplo, se julga fraca porque, de algum modo, ela acredita que está errada por ter escolhido comer isso, pela ideia de que esse doce é uma comida inferior, porque é o que foi ensinado a ela. Concordo que Snickers não é a mais nutritiva das comidas, mas ele não é veneno, não é ruim e não faz dela uma pessoa fraca por ter comido. Ele é só uma barra de amendoim e caramelo coberta por chocolate, provida de características nutricionais não muito animadoras e de um sabor delicioso, é verdade, porém totalmente desprovida de valor moral.

Se você se aventurar pelos outros posts aqui do blog, verá rapidamente que sou grande defensora de alimentos frescos e naturais, recomendo orgânicos, alerto sempre sobre a importância de evitar os industrializados e adoro cozinhar, sugerindo sempre a escolha de alimentos preparados em casa, de preferência com receitas deliciosas e amor. Mas sabem a verdade? Isso nem sempre é possível. Muitas vezes não há tempo ou dinheiro ou vontade. Você pode até procurar ter refeições nutritivas durante a maior parte da semana, mas há aquela sexta-feira à noite em que o trabalho foi péssimo, você brigou com um amigo ou simplesmente não tem forças para lavar pratos, e tudo que quer é pedir uma pizza. Ou dane-se o jantar, você quer tomar sorvete e ir dormir. Mas há indústrias que lucram criando regras de como as pessoas devem se alimentar, lucram com o fato de você se achar uma pessoa ruim, de querer iniciar uma dieta no dia seguinte e comprar o milagroso produto que elimina muitos e muitos quilos em poucos dias. E suas únicas opções são ou partir para a cozinha e fazer um jantar que não vai aproveitar direito ou pedir a pizza com a certeza de que a Polícia da Comida está te vigiando e te julgando. De um jeito ou de outro, você perde.

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É importantíssimo saber fazer escolhas saudáveis na alimentação. É ótimo optar por alimentos e ingredientes de qualidade. É recompensador investir um tempo na cozinha para preparar uma refeição nutritiva e saborosa, só porque você merece. Mas, mais do que tudo, é vital fazer tudo isso por uma escolha própria, para cuidar de si, e não porque tem alguém dizendo que você é um ser humano terrível se não fizer. Além disso, é libertador ter o direito de não fazer nenhuma dessas coisas sem se odiar, sem se julgar uma pessoa ruim e sem se culpar. A escolha de comer um alimento menos nutritivo pode ser por falta de tempo, por conveniência, pelo preço ou mesmo pelo simples motivo de que é gostoso, mas nunca vai ser porque você é uma pessoa ruim comendo comida ruim. Acreditar nesse julgamento é aceitar a culpa e a vergonha e, consequentemente, é criar um comportamento alimentar conflituoso. Tenho um pedido: vamos deixar o julgamento da moral se ocupar das grandes questões de convivência e conduta, e encarar um chocolate somente como o que ele é. Vamos esquecer a Polícia da Comida. Não precisamos de ainda mais complicações na nossa alimentação, porque eu acredito e quero que acreditem junto comigo que comer é simples!

Imagens: Reprodução Flickr

12 thoughts on “Ensaio sobre a moral (da comida?)

  1. Oi, Ana!

    Fico bem feliz que está gostando dos textos e que estão te ajudando, de verdade. 🙂

    Quanto ao fórum, ele fazia parte de um site que eu acompanhava, de uma nutricionista norte-americana, mas foi desativado já há algum tempo. Se tiver interesse, há o grupo Comendo sem culpa no Facebook, que é bem ativo e funciona justamente como um espaço onde a gente discute os malefícios das dietas, as pressões para emagrecer e muitas outras questões de autoconhecimento e bem-estar, buscando encontrar um equilíbrio e uma relação prazerosa e saudável com a comida. Recomendo bastante.

    Obrigada por acompanhar meu trabalho e pelo seu comentário!

    Abraços. 🙂

  2. Olá!
    Descobri o site ontem e simplesmente adorei! Estou me identificando com muitas coisas que os seus posts trazem. Ainda, eles estão conseguindo me ajudar bastante, portanto, obrigada!
    A respeito desse post, fiquei curiosa quanto ao fórum citado. É um lugar onde as mulheres podem comentar sobre essas pressões pra emagrecer, ou os comentários em geral são como os dessa adolescente? O fórum ainda está em atividade?
    Enfim, mais uma vez, obrigada! Sigo agora para outros posts.

  3. Oi, Carol.

    Que legal que gostou dos textos! Fique à vontade para compartilhar com seus alunos, basta informar a autoria, por favor. 🙂

    Espero que continue acompanhando o blog, sim, obrigada!

  4. Olá Ariela, adorei seu texto…sou personal training e acredito que terei ótimos textos aqui para compartilhar com meus alunos…Obrigada
    Não consegui ler todos o textos ainda, mas com certeza voltarei.

  5. Oi, Bárbara!

    Que feliz ler seu comentário aqui, me encheu de gratidão. O blog da Erika é realmente sensacional, que bom saber que tem mais gente que acredita e busca as mesmas coisas que a gente, né? Muito, muito obrigada por deixar essas palavras aqui. O blog tem estado parado, mas pretendo voltar assim que possível!

    Beijos 🙂

  6. Que delícia seu site!
    Parabéns Ariela!
    Conheci há alguns dias o site e estou lendo todos os textos do blog e adorando cada um deles!
    Você explica tudo de forma clara, usando seus conhecimentos médicos e mostrando como as coisas podem mesmo ser mais simples!
    Ao ver o comentário da Erika aqui em cima não pude deixar de comentar também! Meu primeiro passo para a mudança de discurso e abandono de dietas foi por meio do Blog Brigadeiro de Alface. E depois dele conheci outros maravilhosos, inclusive o seu!
    Parabéns pelo belo trabalho! Por “nadar contra a maré” e mostrar que nem tudo que vemos e ouvimos na mídia é o certo ou normal. Continue sempre por aqui, tem ajudado bastante.
    Beijos e obrigada!

  7. Oi, Débora!

    Fico super feliz que você gostou do texto, e que também concorda que comer bem e de forma saudável não necessariamente quer dizer viver em paranóia. 🙂
    Quanto mais gente pensando assim na área da nutrição e da saúde em geral, melhor. Obrigada pelo comentário e por ler o blog!

    Abraços.

  8. Que texto incrível! É essa minha grande luta na Nutrição. Meus professores tanto falam que não pode ter essas falhas (uma vez falei que comia uma panelada de brigadeiro com meu namorado se a gente fizesse e me olharam horrorizados… qual é o crime?)
    Parece que se a pessoa quer VIVER ela não pode. Sou, tal como tu, defensora de alimento mais naturais (fazer tudo em casa dá um gosto melhor… lavar nem sempre é a melhor parte, mas compensa a comida boa), mas há momentos da semana que realmente fica difícil.
    Muito bom teu texto!
    http://rainbow-princess-blog.blogspot.com.br/

  9. Oi, Erika! Realmente, não tenho nada a acrescentar ao seu comentário, acho que não existe lugar para o radicalismo em coisas tão particulares como a alimentação. Precisamos mesmo é “desmoralizar” a comida de uma vez por todas! Obrigada pelo comentário, e parabéns também! 🙂

    Beijos

  10. Oi Ariela,
    Como sempre, concordamos em tantas coisas! Eu só estou passando agora para ler este post que você deixou linkado no meu facebook e me arrependo de não ter passado antes. Eu também discordo completamente que a moral de uma pessoa possa estar relacionada às escolhas alimentícias dela, mas infelizmente é o que eu vejo mais e mais a cada dia. Os saudáveis de um lado, num pedestal, orgulhosos por suas escolhas sábias de estilo de vida; e o restante dos mortais do outro lado.
    Temos que ser cuidadosos em classificar comida, escolhas ou estilos como bom ou ruim. Há muito mais tons de cinza do que preto e branco, mas parece que estamos esquecendo disso.
    Parabéns pelo post! Parabéns pelo trabalho!

    Beijos,
    Erika Elenbaas
    http://www.brigadeirodealface.com

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