É impossível comer um só!

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Você já ouviu falar em hiperpalatabilidade?

O título deste post certamente lhe é familiar. Bom, ao menos se você tem de 20-30 anos. Ou se tem filhos. Ou se tem uma TV. Enfim, é uma frase bem famosa no mundo da propaganda de lanches industrializados que parecem com isopor amarelo. E ela tem tudo a ver com o assunto de que quero falar no texto de hoje: a hiperpalatabilidade dos alimentos industrializados. Calma, vamos por partes: a palatabilidade somente é a qualidade que define aquilo que é palatável, ou seja, agradável ao paladar. Já a hiperpalatabilidade pode ser facilmente explicada por aquela sensação de não conseguir comer só um chocolate da caixa, um punhado de amendoim japonês ou só um pouquinho daquela batata chips. Basta se lembrar da sensação que fica na boca depois de comer essas coisas e da força sobrenatural que te faz voltar e pegar mais, até que a embalagem esteja vazia e você esteja se perguntando se o supermercado mais próximo está aberto. Em alguns casos, parece realmente impossível comer de forma moderada. Pronto, isso é o que vem sendo conhecido como hiperpalatabilidade, e eu sei que você entendeu, mas vou explicar mais um pouco essa história.

ddfgdggPrimeiro, é bom ficar sabendo que nosso organismo é esperto e sabe exatamente do que ele gosta: açúcar, sal e gordura. O paladar sempre foi uma ferramenta muito útil para decidir se este ou aquele alimento oferece as qualidades que estamos procurando, ou ainda, se é impróprio para o consumo, com o gosto sendo o principal indicativo. Coisas de gosto doce dão ao nosso corpo a idéia de fonte de energia, o salgado indica o teor do mineral sódio, e o gosto azedo muito forte pode muito bem denunciar uma comida estragada, por exemplo. Quando ainda não tínhamos cientistas esmiuçando cada mínimo nutriente dos alimentos e não havia a opção de simplesmente ler no rótulo, o nosso paladar e a palatabilidade ajudou nossos ancestrais a escolher os alimentos que mais contribuiriam para a saúde e a manutenção da espécie. Além dessa influência evolutiva, preferências pessoais por um alimento específico podem ser determinadass por diversos outros motivos, como fatores culturais, sociais e até mesmo por puro hábito. Para entender um pouco mais sobre como acontece essa resposta do nosso corpo à hiperpalatabilidade, é preciso primeiro fazer algumas perguntas.

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4009721457_6138e42d93_oResponder que comemos porque temos fome é acreditar em uma visão extremamente simplista e incompleta, pois existem inúmeras razões para comer. Pode ser que você só tenha aquela horinha entre um compromisso e outro para fazer uma refeição. Talvez esteja num almoço de família e tem alguém insistindo para que você prove pelo menos um dos pratos. Há aqueles momentos, em alguma festa, em que o garçom com a bandeja de docinhos tentadores passa toda hora do seu lado. Talvez você simplesmente passou um dia horrível e acha que uma comida gostosa pode te ajudar a melhorar as coisas, sendo movido pela famosa fome emocional. Como, nesses momentos, o cérebro decide que é hora de comer?

Há uma explicação neurobiológica para todas as ações que decidimos realizar, e é baseada principalmente em uma coisa: sensação de recompensa. Isso mesmo, o cérebro é realmente cheio de interesses e compara inúmeras variáveis para saber se determinada ação vai ser recompensadora o suficiente e se merece ser realizada. Sabe aquele momento em que você está deitado no sofá, depois de uma dia cansativo, morrendo de fome, e não há nada pronto para comer? Você sofre, enrola bastante, mas, por mais difícil que pareça, chega uma hora em que simplesmente levanta e vai na cozinha preparar alguma coisa. Ou liga para pedir uma pizza, sejamos realistas. O fato é que, neste momento, seu cérebro decidiu que sua necessidade de nutrientes e energia era maior do que sua preguiça, e que seria mais recompensador comer do que ficar deitado.

4308277281_8912c7f08e_bEssa decisão de comer algo motivada pela necessidade de energia é apenas uma parte da equação da recompensa e, como eu falei acima, há diversos fatores que te influenciam nessa ação e que se relacionam de maneira extremamente complexa no cérebro. Você pode decidir que é mais recompensador escolher comer uma salada no lugar de um doce porque acredita que vai ser melhor para sua saúde. Ou comer aquela fatia de torta que sua tia fez porque, caso contrário, ela ficaria magoada e seria recompensador vê-la feliz. Pode decidir comer em um determinado horário ou escolher certo alimento simplesmente porque gosta de seguir seus hábitos. E, claro, você pode comer alguma coisa porque é muito gostosa e porque se sente bem ao fazer isso. Nesses casos, você está comendo movido pelo prazer que o consumo de determinado alimento causa no seu corpo, que pode ser uma experiência dos sentidos, mas pode também ser um processo exclusivamente bioquímico interno, do qual você nem se dá conta. Veja se entende o que estou falando… já passou por alguma situação em que você continua comendo um petisco, não porque ele é uma delícia ou porque está com fome, mas simplesmente porque é muito difícil de parar?

title 22Na verdade, é algo simples na teoria: paramos quando estamos satisfeitos! Num ser humano adulto cujos processos de fome e saciedade estão saudáveis e funcionando de maneira adequada, a hora de parar de comer é determinada pela sensação de satisfação. Claro que alguém pode comer menos do que o necessário porque está em alguma dieta restritiva ou pode repetir o prato do almoço mesmo sem estar com fome, só porque gostou bastante. Nesses casos, estamos cientes da saciedade ou falta dela, mas conscientemente alteramos o processo da alimentação por motivos racionais que, claro, são exclusivos dos seres humanos. Você não vê uma foca comendo menos porque o verão está chegando, né? Pois bem.

coffeeA saciedade, então, é a responsável por indicar a hora de parar de comer e pode ser definida de duas maneiras distintas: a saciedade motivada por estímulos dos sentidos, como o sabor do alimento e a sensação de estômago cheio, e a saciedade motivada pela absorção dos nutrientes pelo corpo, fazendo com que ele se sinta realmente alimentado. Funciona da seguinte maneira: você sente fome, encontra uma comida saborosa e nutritiva e então come até ficar saciado. Mas se é tão simples assim saber a hora de parar de comer, porque nem todos conseguem? A verdade é que não é tão fácil quanto essa explicação faz parecer. Algumas pessoas não absorvem bem os nutrientes, outras têm dificuldade de obter a energia necessária dos alimentos e muitas têm falhas no sistema que sinaliza a saciedade ao cérebro. Esses e muitos outros fatores trabalham também influenciando o processo de alimentação, e alguns estão inclusive sendo estudados como causadores da epidemia de obesidade pelo mundo. Também não podemos esquecer as pessoas que comem compulsivamente por motivos emocionais e aquelas que têm desordens alimentares, enfim, há muitas variáveis. Mas a gente sabe que há alguns momentos em que mesmo as pessoas mais saudáveis e com a alimentação mais equilibrada comem algo em excesso, até sem ter fome e de maneira realmente exagerada. O que acontece?

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Podemos, finalmente, entender o que caracteriza um alimento como hiperpalatável. Mas antes disso, prefiro resumir o que discuti até agora, para esclarecer um pouco o processo alimentar e não confundir ninguém: a nossa alimentação é regulada por diversos mecanismos cerebrais, sendo alguns dos principais o sistema que regula nossa necessidade de energia, o centro que regula o prazer, o centro cognitivo e emocional, e o sistema de controle da saciedade. Por sua vez, cada um deles é influenciado por inúmeras variáveis, que vão desde coisas simples como o sabor do alimento até um grave problema de família que faz com que alguém coma em excesso. Colocando de uma forma bem clara e em termos simples: em condições ideais, comemos para obter energia e prazer, e paramos de comer ao atingir a saciedade. E vocês vão concordar comigo que toda essa história seria muito mais fácil se não existissem salgadinho sabor bacon, M&Ms, biscoito recheado, batata frita ou calda de caramelo no mundo, não é? Porque, por alguma razão, quando essas comidas entram em cena, a moderação sai voando pela janela. Qual seria a explicação para isso?

7361794470_7d98da8b65_zVoltemos lá ao início do texto, quando eu disse que o nosso paladar é treinado para reconhecer e gostar de determinados sabores, e trabalha junto com o cérebro para conseguir alimentos que o organismo julga como melhores para a saúde e sobrevivência. Atualmente, já não dependemos tanto dessas ferramentas químicas e sensoriais para nos mantermos vivos, mas o corpo mantém suas preferências pelo açúcar, o sal e a gordura porque sabe que estes nutrientes são essenciais para nós. O problema com isso é que a maioria dos alimentos consumidos no mundo hoje em dia contém quantidades absurdas desses componentes e muito, muito além do que seria encontrado em alimentos naturais ou tradicionais. E o pior não é isso! Na maioria das vezes, eles são compostos apenas disso: açúcar em excesso, gorduras oxidadas e muito sal, além de sabores e aromas químicos e artificiais. Não há fibras, proteínas, vitaminas, outros minerais, gorduras saudáveis ou qualquer nutriente que serviria de fato para saciar o nosso organismo. Também trazem consigo uma enorme quantidade de energia em um pequeno volume, o que não contribui nem um pouco para a saciedade. Em resumo: são produtos que excitam nosso paladar e nosso cérebro de maneira muito intensa, algo que nenhum alimento natural seria capaz de fazer, mas que ao mesmo tempo não trazem consigo os nutrientes pelos quais o corpo estava procurando quando os selecionou para o consumo.

O corpo diz: Estou com fome, preciso de nutrientes e energia.
Cérebro: Oba! Acho que essa barra de chocolate ao leite com recheio de creme de baunilha tem todas as características necessárias para resolver o problema. Vou comer.
Corpo: Não adiantou, continuo com fome.
Cérebro: É, acho que o único jeito é comer mais uma barra de chocolate.
Corpo: Não, cara, acho que tem algo errado… continuo fraco e com fome aqui.
Cérebro: Ok, então mais umas duas barras e o problema está resolvido!

E assim continua. Não é como comer algo que não sacia e não dá prazer, e também não é algo que é saboroso e alimenta. As comidas hiperpalatáveis combinam uma grande quantidade de prazer e excitação cerebral com pouca ou nenhuma capacidade de saciar, o que faz com que nossa vontade de consumi-las nunca termine. Alguns estudos demonstram ainda que o estímulo excessivo causado no centro de prazer pelos alimentos hiperpalatáveis seria capaz de anular a resposta cerebral de saciedade. Para entender: após um grande e satisfatório almoço, você aceitaria comer um prato cheio de arroz puro? Duvido. Mas sempre tem espaço para o sorvete, né? Ou seja, a hiperpalatabilidade é uma enorme armadilha.

5687504411_c625c61d25_bMas não se desespere, a solução não é comer comida sem graça para sempre! A comida altamente processada é o problema, e a solução, portanto, é evita-la. Buscar consumir alimentos naturais e comida feita em casa, com ingredientes básicos, é a saída que temos para fugir desse ciclo vicioso. Pode levar algum tempo até que o paladar e o organismo condicionados aos alimentos hiperpalatáveis se acostumem à comida simples, mas ela se torna gradualmente mais prazerosa e certamente é nutritiva, o que faz com que o corpo se sinta saciado e satisfeito. Evite a todo custo basear sua alimentação em produtos industrializados e hiperpalatáveis, ou seu corpo corre o risco de ficar desnutrido e você nem perceber. Se escolher comer alguns desses alimentos hiperpalatáveis, procure fazer isso após uma refeição completa, assim há menos chances de querer comer em excesso. Prefira sempre comida de verdade!


Alguns links interessantes:

Hedonic Impact (“Liking”), Incentive Salience (“Wanting”), and “Food Reward”: Why Are We Hungry?
Food Reward: Approaching a Scientific Consensus
Central opioids and consumption of sweet tastants: when reward outweighs homeostasis.
Clinical review: Regulation of food intake, energy balance, and body fat mass: implications for the pathogenesis and treatment of obesity.

Imagens: Reprodução Flickr

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