Açúcar – A dor e a delícia

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sugarlipsNão é novidade para ninguém que o açúcar não é lá o alimento mais nutritivo que existe, correto? Todo mundo consegue, mesmo que superficialmente, relacionar o uso excessivo de açúcar com o aparecimento de doenças e entende que, por este motivo, o seu consumo deveria ser reduzido. Infelizmente, essa é mais uma daquelas situações em que todo mundo sabe e entende, mas fazer é que é a parte complicada. Verdade seja dita: para a maioria das pessoas é muito difícil mudar hábitos e parar de consumir açúcar!

E isso não acontece sem razão: o açúcar ativa os centros de recompensa do cérebro, exatamente como fazem as drogas de abuso, e seu consumo crônico pode levar ao vício. Além disso, ele também “engana” os nossos hormônios e prejudica os mecanismos reguladores de apetite do organismo, fazendo com que não fiquemos saciados. Vou explicar um pouco mais sobre isso logo abaixo, mas tenha em mente: a dificuldade de reduzir o açúcar não é simplesmente falta de força de vontade sua, existem diversos fatores trabalhando para tornar esta uma tarefa muito complicada!

Açúcar – Por que evitar?

2682926706_9193eaf31f_bComo o termo “açúcar” é muito abrangente, esclareço que ao falar dos prejuízos do seu uso e da sua relação com o aparecimento de doenças crônicas, estou fazendo referência ao açúcar refinado comum. Ele pode ser encontrado em sua apresentação isolada, como o açúcar de mesa, em preparações culinárias, ou adicionado a alimentos industrializados, que representam a maior fonte de açúcar na alimentação atual.

E quando falamos na necessidade de diminuir o açúcar, a primeira razão que vem à nossa mente é que ele representa calorias vazias, ou seja, não oferece valor nutricional relevante. Sim, isso é verdade, coisa que todo mundo já sabe, mas também é só o início dos problemas. A cada dia, surgem mais e mais evidências de que o açúcar refinado é também um dos principais desreguladores do nosso metabolismo e importante fator causador da obesidade e outras doenças crônicas. Em termos claros, o excesso de açúcar é tóxico para o organismo.

Muitos estudos têm apontado que as doenças modernas, como diabetes e obesidade, são consequências de um estado inflamatório prolongado no organismo, o qual prejudica a regulação da homeostase (equilíbrio interno) e também promove defeitos estruturais nas nossas células. E sabe qual é o principal efeito das toxinas nosso corpo? Inflamação.
Assim fica mais fácil entender que, seja lá qual for a toxina causadora da inflamação, a exposição por tempo prolongado a ela vai favorecer o aparecimento dessas doenças. Como o açúcar refinado é uma das principais toxinas que consumimos atualmente… ele também é um dos principais responsáveis pelo adoecimento!

Se quiser, você pode ler mais sobre a relação de outros alimentos com o desenvolvimento de doenças crônicas nos textos da série sobre alimentação saudável. A interação entre o estado inflamatório e o surgimento das doenças ainda não é completamente entendido e diversas lacunas precisam ser preenchidas para explicar totalmente as causas, mecanismos e efeitos presentes neste processo, mas destaco que o papel de um estilo de vida tóxico tem se mostrado cada vez mais importante. Neste texto, vou apenas dar pinceladas sobre alguns dos mecanismos que têm relação direta com o açúcar e que facilitarão o entendimento dos motivos pelos quais o consumo desse alimento pode ser prejudicial para nós.

A leptina

dddEla é um hormônio produzido no tecido adiposo que desempenha um papel vital na regulação do nosso apetite: é o responsável por informar ao cérebro quando estamos satisfeitos e quando há excesso de gordura no corpo. De modo simplificado, uma queda nos níveis de leptina informa ao corpo que é hora de comer, e uma elevação sinaliza que devemos parar de consumir ou de acumular energia. A inflamação causada pelo consumo de açúcar, especificamente da frutose, faz com que fiquemos resistentes à ação da leptina, através de diversos mecanismos metabólicos. Ou seja, o nosso cérebro não é adequadamente avisado sobre a quantidade de comida que ingerimos e ele não mais “enxerga” a gordura corporal! Esses efeitos fazem com que seja mais provável que a gente coma em excesso e favorecem o surgimento da obesidade, além de prejudicar o processamento dos lipídios e açúcares no organismo.

A insulina

6609161179_34ff47c05d_bO consumo de alimentos refinados e açúcar simples cria uma montanha-russa de açúcar e insulina no sangue. É mais ou menos assim: você toma um copo de refrigerante, ele é rapidamente absorvido e faz com o que o açúcar no sangue se eleve de imediato. O organismo responde adequadamente, fazendo com que a insulina aumente logo em seguida, e ela coloca todo esse açúcar que estava circulando para dentro das células, o que faz com que seus níveis no sangue voltem a ficar baixos. O problema é que, a longo prazo, esse mecanismo tende a ficar menos eficiente e nossas células tornam-se cada vez mais resistentes à insulina. Então o corpo tem que produzir mais e mais desse hormônio, até o ponto em que atinge seu limite e passa a falhar. Não sei se você está ciente, mas esses são os exatos mecanismos que levam ao desenvolvimento de diabetes mellitus. A presença constante de níveis elevados de insulina circulando também predispõe ao aumento da gordura corporal, já que ela é o hormônio do acúmulo. E existem outras consequências menos graves, mas muito desconfortáveis, relacionadas à flutuação do açúcar no sangue: já experimentou aquela fome incontrolável no meio da tarde? Pois é. A queda rápida dos níveis de açúcar promovida pela ação da insulina faz com que a fome apareça poucas horas após uma refeição rica em açúcar ou carboidratos refinados.

A cocaína

4685843132_7289115d55_bMentira, não tem nada a ver com a cocaína. Mas eu não coloquei este título no tópico somente para rimar com os outros, veja bem, o consumo excessivo de açúcar pode ser perigoso! Como comentei no início, ele ativa o centro de recompensa do cérebro, ao estimular produção de opióides que dão sensação de prazer e satisfação. Quando essa sensação passa, vem o desejo de consumir mais açúcar. Mas, dessa vez, a quantidade de antes já não produz o mesmo efeito, e é preciso comer cada vez mais açúcar para reproduzir a sensação de bem-estar. Esses mecanismos ativam um ciclo vicioso de busca pela recompensa, que normalmente nos leva a comer açúcar em excesso, por longos períodos. Em indivíduos predispostos a excessos, seja por razões genéticas ou comportamentais, esse ciclo pode se tornar muito prejudicial ao organismo. E tem mais: dores de cabeça, fraqueza intensa e mau-humor/tristeza… Com certeza você conhece alguém que diz ter esses sintomas ao ficar sem comer por algum tempo ou, talvez, você mesmo sinta isso. Estudos demonstram que eles estão comumente relacionados à falta de açúcar, e ocorrem em pessoas cuja alimentação é rica nesta substância. E, quanto mais açúcar é comido, mais prolongados são os efeitos, e mais fácil fica cair no exagero.

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Em resumo, o açúcar é um alimento pobre do ponto de vista nutricional, ele desliga a regulação do nosso apetite, promove o descontrole alimentar e o ganho de gordura, favorece o aparecimento de doenças crônicas e, pra piorar tudo isso, ainda favorece o consumo em excesso. Além disso, o excesso de açúcar circulante gera defeitos celulares, atrapalha a absorção de proteínas, contribui para a perda de cálcio dos ossos e dentes, promove o acúmulo de gordura no fígado, prejudica a função do sistema imunológico, favorece o aparecimento de alergias e problemas gastrointestinais, entre outras muitas consequências indesejáveis. Em um resumo bem claro, o excesso de açúcar bagunça o nosso corpo e coloca a saúde em risco.

Mas açúcar é gostoso!

Nossa, esse argumento é bom. Bom de verdade. Aliás, assim que eu terminei o tópico anterior deste post, fui fazer um pequeno intervalo na sala e, por coincidência, algum confeiteiro na TV estava ensinando a fazer uma sobremesa que parecia deliciosa. Imediatamente, claro, já estava desejando provar aquele doce e percebi que esse texto precisava de mais um tópico, então aqui estou. Porque de todos os golpes baixos que o açúcar poderia nos aplicar, o pior é o sabor. Digo, o melhor. E por mais que o paladar possa ser educado e reeducado, a verdade é que a maior parte de nós é apaixonado pelo gosto doce.

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No post anterior, falei sobre como é importante estar conectado com o seu corpo e tomar as decisões sobre que alimentos consumir ou não. Isso deve ser feito baseado em sua vontade e nos conhecimentos que você tem sobre eles, independente de dietas. Continuo defendendo totalmente esta idéia! E se você é uma daquelas pessoas que consegue exagerar um pouquinho nos doces e aproveitar uma ocasião especial em um dia e aí fazer escolhas nutritivas e balanceadas nos outros, ótimo! Porque ao saber dos riscos e benefícios, você pode fazer essas escolhas livremente. Mas não podemos esquecer que há aquelas pessoas para quem a moderação é um sonho bem distante, quando se trata de açúcar e refinados, e talvez elas prefiram evitar completamente o consumo. E para quem tem filhos ou crianças próximas, atenção redobrada! Como eles não possuem discernimento suficiente para fazer escolhas pela saúde, farão baseados apenas no paladar, então sugiro evitar ao máximo oferecer açúcar e produtos industrializados açucarados a crianças. Cabe a cada um conhecer seu comportamento e seu corpo, assim como se informar sobre os fatores que influenciam nossa saúde, e assim eleger o melhor caminho.

Ficou interessado em comer menos açúcar ou, quem sabe, fazer este consumo de forma mais consciente? No próximo post, eu vou trazer dicas que podem ajudar no processo desafiador que é essa mudança na alimentação!

Alguns links com mais informações do assunto:

The NY Times – It’s the Sugar, Folks
Dr. Lustig – Sugar: The Bitter Truth (vídeo do YouTube)
The Huffington Post – This Is Your Brain On Sugar

3 thoughts on “Açúcar – A dor e a delícia

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