Fuja da dieta!

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freedomEis um fato: eu estive acima do peso durante a maior parte da minha vida. De um bebê gordinho, daqueles que todo mundo quer apertar a bochecha, passei à criança gorda que o pai não consegue carregar por muito tempo e, finalmente, à adolescente obesa que sofria com sérios problemas de autoestima. No início da vida adulta, motivada por razões erradas, perdi mais de 20Kg pelos caminhos mais dolorosos possíveis. Hoje, finalmente, trabalho todos os dias para fazer com que a minha relação com a comida, meu peso e a minha aparência seja a mais pacífica e livre de culpa possível. Pretendo detalhar mais essa história de perda de peso e as dificuldades que sempre enfrentei ao lidar com a minha autoimagem e o julgamento dos outros, pretendo também explicar como tenho conseguido me livrar de todos esses obstáculos, e, enfim, os caminhos que me trouxeram à situação atual. Mas não hoje. Hoje quero falar especificamente de como e por quê eu acredito que ninguém deve fazer dietas. Dietas com planos alimentares restritos, lista de alimentos ou nutrientes permitidos e proibidos, horários inflexíveis e toda sorte de regras e limitações. E falo com a propriedade de quem já esteve em várias dietas e pretende não precisar fazer nenhuma novamente. Nunca mais.

Cinco razões pelas quais eu acredito que ninguém deve fazer dietas

1- Você nasceu sabendo comer

Sim, parece algo bobo para se afirmar, mas dê uma chance a essa reflexão, pense um pouco sobre ela. Quando você era um bebê, sabia exatamente a hora em que estava com fome e chorava para avisar, assim como sabia precisamente quando não precisava de mais nenhum “aviãozinho” e virava o rosto para o lado, deixando sua mãe achando que você iria morrer de fome. A maioria dos bebês tem sorte porque, ainda que o conteúdo da alimentação seja definido por outra pessoa, eles só vão comer quando e quanto acharem necessário. Curiosamente, muitos dos adultos atuais, aparentemente perderam essa capacidade. Por todo lado vemos regras não só do que comer, mas de como mensurar nossas refeições, de priorizar certos nutrientes, e também de quanto em quanto tempo comer… A princípio, parece algo bom, parece que todos deveríamos seguir dietas, assim saberemos o que fazer! Quando foi que ficou tão difícil para nós estar no controle da nossa alimentação?
sdsdsfMais uma vez, a indústria representa um importante papel nesse cenário, mais especificamente, a indústria alimentícia e sua subdivisão altamente lucrativa – a indústria da dieta. Sim, milhões de pessoas gastando bilhões todos os anos em programas de emagrecimento, pacotes de spas, assinaturas de revistas, alimentos superpoderosos, produtos milagrosos e ainda novos produtos mais milagrosos do que aqueles produtos milagrosos de antes. É algo que realmente te faz parar e pensar: como os nossos ancestrais sabiam o que comer, sem um expert para ensinar, sem conhecer os nutrientes ou sem ler sobre o último superalimento nas revistas? Nas palavras de Michael Pollan, há um motivo claro e infeliz para vivermos este panorama:

Atualmente, os alimentos são vendidos apenas com base em seus benefícios para a saúde: um é capaz de reduzir seu colesterol, outro é rico em fibras. Os nutrientes tornaram-se mais importantes que a comida em si. O alimento é apenas um intermediário na entrega destas substâncias. Como os nutrientes são invisíveis para todos, exceto para o cientista e seu microscópio, escolher o que comer tornou-se uma decisão para profissionais, e não para amadores apenas. Aparentemente, é necessário ter um diploma de bioquímica para fazer essa escolha, o que não é verdade. Além disso, as mensagens científicas com relação à comida são muito confusas. Há muita divergência entre especialistas sobre o que é ou não saudável.”

Excetuando-se o fato de um regime alimentar favorecer o cuidado com os alimentos que oferecemos ao nosso organismo, na minha opinião, seguir as regras rígidas de uma dieta não é algo tão saudável assim. Eis aqui o por quê:

As dietas dizem para você ouvir as regras e não o seu corpo. Elas te orientam a suprimir repetidamente seus sinais internos, sejam de fome ou saciedade, até o ponto que já não os reconhece. Elas te fazem acreditar que você não é competente para escolher o que, o quanto e quando deve comer.

É verdade que o conhecimento que temos hoje sobre os alimentos, nutrientes e seu impacto na nossa saúde é inestimável? Sim. É verdade que temos a extraordinária sorte de existirem profissionais dispostos a estudar e ensinar sobre os alimentos e sua relação com a saúde? Sim. É verdade que ter alguém disposto a acompanhar e orientar pessoas em busca de uma melhoria da alimentação e redução de peso, quando é o caso, é algo que devemos agradecer? Sem dúvidas. Eu acredito que devemos transformar toda essa maravilhosa gama de conhecimentos em uma ditadura dietética e segui-la sem questionar? De maneira nenhuma. Eu acredito que você sabe comer.

2 – Por que essa luta contra o peso, afinal?

tumblr_ll43xlr8AE1qcb58yo1_500Alguns alegam que é pela saúde. Sim, eu concordo que comer de forma saudável pode fazer maravilhas pela sua saúde, mas isso não tem nada a ver com dietas ou perda de peso. É isso mesmo, para aqueles que ainda equacionam perda de peso com ganho de saúde, gostaria de esclarecer que as duas coisas estão longe de ser sinônimos. Assim como é perfeitamente possível ser saudável e ser gordo, é absolutamente possível – e muito comum, diga-se – perder a saúde juntamente com o peso. Bom, existe a obesidade, que, sem dúvidas, pode ser um fator limitador e favorecer o aparecimento de algumas condições patológicas, como dores articulares e problemas na coluna. Os mecanismos por trás do ganho de peso e da obesidade são diversos e existem incontáveis teorias, então, se eu resolvesse pesquisar mais e falar sobre elas, esse texto certamente ficaria chato e científico demais, e este não é o meu objetivo. Quero que se concentrem apenas no seguinte pensamento:

E se a obesidade não fosse exatamente um fator causador de doenças crônicas (como hipertensão e diabetes), mas sim uma consequência de um estilo de vida ruim, juntamente com essas doenças? Quer dizer que o foco está completamente errado: reduzir o peso através de alguma mágica não vai livrar ninguém de ficar doente, apenas vai mascarar o problema. O nosso estilo de vida contém fatores determinadores da nossa saúde muito, muito mais importantes do que o peso, e uma pessoa acima do “peso ideal” que come de forma saudável, faz exercícios regulares e mantem bons hábitos de vida tem muito mais chances de ter uma saúde melhor do que uma pessoa magra que não faz nada disso.

dfsegfsdApesar de a perda de peso motivada pela busca da saúde não ser exatamente a melhor explicação, ainda é melhor do que a perda de peso motivada apenas por questões culturais. A partir da década de 50, a mídia e a moda decidiram que era bonito quem era magro, e, infelizmente, assim seguem propagando até hoje e com certeza tem muita gente lucrando com isso. Seja qual for a motivação para reduzir o peso, a maioria das pessoas tem mentalmente idealizado um corpo que julga perfeito e um determinado peso que gostaria de atingir ou manter. Bom, se for seu caso, a informação seguinte pode não ser muito agradável: nosso organismo tem bem definido no cérebro qual é exatamente a faixa de peso em que devemos estar. Exatamente como regulamos a temperatura do nosso corpo, o peso também é regulado por mecanismos específicos e tende a sofrer uma variação normal de cerca de 10Kg para mais ou para menos. Muitas pessoas fazem esforços para ir contra essa pré-definição e, através de uma alimentação precisamente calculada e rotinas de atividades físicas rígidas, algumas conseguem atingir determinadas metas de aparência e composição corporal. Caso o estado em que se encontrem esteja fora da taxa de variação que o cérebro tem definida, manter o peso da maneira que desejam será como manter um balão cheio de ar no fundo da piscina: com esforço, é possível, mas basta um minuto de distração e ele retorna ao seu ponto original. Se a saúde é possível de ser atingida através de, entre outras coisas, uma alimentação saudável e intuitiva, e a busca pelas metas de aparência impostas pela sociedade tem se provado cada vez mais prejudicial, a pergunta muda: para que dietas, afinal?

3- Estresse pode desregular o seu organismo

bride worryQuando comemos menos comida ou menos calorias com o objetivo de emagrecer, coisa comum em dietas restritivas, oferecemos menos energia ao corpo. Infelizmente, ele não sabe a diferença entre estar nesse tipo de dieta e estar passando fome, o que faz com que lute bravamente para reverter a situação e responde reduzindo o metabolismo, a fim de manter a taxa de peso que considera ideal. É por isso que é tão comum ouvirmos o fato que, após 5 anos do fim da dieta chamada “de sucesso”, a maior parte das pessoas retorna ao peso inicial ou fica até mais pesado do que antes do início da dieta. Aliás, mais comum ainda: todos nós conhecemos alguém que vive entrando e saindo de dietas, no famoso “efeito sanfona”. Nesse caso, a falha da dieta representa uma grande vitória evolutiva e um mecanismo valioso do nosso organismo – seu corpo, na verdade, se acha muito esperto ao ganhar todo o peso de novo.

Fora estes efeitos óbvios no metabolismo, há mais a se considerar: quem está em uma dieta, comumente experimenta sentimentos de culpa, privação, ansiedade, preocupação excessiva, vergonha… enfim, constantemente se encontra em condições de estresse elevado. Ele é capaz de desorganizar completamente nosso metabolismo, precipitando uma resposta endócrina que inunda o corpo com hormônios como adrenalina e cortisol, cujo excesso prolongado pode favorecer o surgimento de inúmeras doenças. Ganho de peso, irritabilidade, doenças autoimunes, alergias, problemas gastrointestinais… A dieta, afinal, pode acabar causando mais doenças do que qualquer alimento que você esteja evitando.

4 – “Quero, mas não devo” – O caminho para um distúrbio alimentar

4968908775_e8982f5a8a_bAqui, eu volto novamente ao primeiro tópico: dietas são centradas em controlar nossa forma de nos alimentar. Entre nutrientes, horários, quantidades, pesos e regras, o foco principal das dietas é nos dizer o que não comer. Mas a verdade é que a maioria de nós quer comer também aquilo que a dieta proíbe! O que acontece, então? A lógica das dietas faz com que a gente acredite que não sabe o que comer e então nós acabamos por julgar nossas vontades como erradas, evitando atendê-las. O nome disso é privação. A qual, como eu já comentei anteriormente, anda de mãos dadas com a compulsão e a culpa. Aparece uma preocupação excessiva com o que está no prato, se estamos acertando ou errando, o que especialista-fulano-de-tal diria da nossa escolha e se aquela pessoa da mesa ao lado está julgando o que você vai comer. A ansiedade para que chegue o fim de semana, algum feriado ou ocasião especial em que a pessoa se sinta livre para comer qualquer coisa também é comum, e o exagero muitas vezes ocorre, em resposta ao comportamento restritivo dos outros dias. A longo prazo, todos esses comportamentos fazem com que nosso padrão alimentar tome contornos patológicos e favorece o aparecimento de distúrbios alimentares reais e potencialmente fatais. A verdade é que, em linhas gerais, uma alimentação saudável permite a inclusão de qualquer alimento que você tenha vontade.

5 – A falha é sempre culpa sua

Nos tópicos anteriores, falei sobre como a dieta ignora nossos mecanismos internos de fome e saciedade, como desorganiza nosso metabolismo, como torna nossa percepção sobre a comida obsessiva e potencialmente patológica e, principalmente, sobre como nosso organismo tem definições preestabelecidas de qual nosso peso e nossa composição corporal devem ser, e as defende a qualquer custo. Por que, então, quando alguém sai da dieta ou quando recupera o peso perdido a culpa sempre recai sobre a força de vontade? Não faz sentido, com tantos fatores adversos, acreditarmos que a falha da dieta é igual a uma falta de esforço do indivíduo, a razão não é comportamental. Estresse emocional, pressão dos amigos e familiares para voltar a comer normalmente, compulsão alimentar motivada por privação e até mesmo simples fome excessiva causada por desequilíbrios hormonais são fatores que podem levar um indivíduo a recuperar o peso perdido. Mas nenhum deles é consequência de falta de força de vontade, eles são consequências de fazer uma dieta restritiva. Claro, não vamos esquecer também que vivemos em um ambiente rodeado de anúncios que tentam te convencer, o tempo inteiro, a consumir alimentos que desregulam nossos hormônios e podem se tornar muito viciantes, o que também não é lá grande ajuda pra quem está tentando manter uma dieta.

E não adianta chamar de reeducação alimentar ou estilo de vida ou, até mesmo, de alimentação saudável se a lógica de dieta permanece. Até naqueles planos alimentares mais completos e mais flexíveis, sempre haverá espaço para jogar a culpa da falha sobre seu comportamento:

“Você comeu calorias demais”, “Você não contou direito os pontos”, “Você não foi sincero no diário alimentar”, “Você comeu gordura demais”, “Você comeu gordura de menos”, “Você comeu pouca proteína”, “Você comeu muitos carboidratos!”, “Como pode querer emagrecer se ainda come tantos industrializados?”.

Essa lista poderia, sinceramente, prosseguir por linhas e linhas, e o resumo de todas elas seria: “Você não se esforçou o suficiente”. Veja bem, eu te enganei: na verdade, praticamente todas as dietas funcionam e fazem o que dizem fazer, desde que você fique para sempre nelas. Mas será que isso é possível? Se não conseguir, não se preocupe, o problema não está com você e sim com a dieta.kcjjckdjaAqui no blog, coloco informações sobre coisas que acho relevantes para se ter uma alimentação saudável, sugiro preferir ou evitar alguns alimentos e também defendo algumas teorias sobre alimentação. Mas em nenhum momento você me verá afirmar que alguém deve seguir estritamente o que eu digo para atingir algum objetivo só porque é o que julgo certo e parece adequado, de acordo com meus estudos e experiência. Não recomendaria uma dieta com regras específicas a alguém que não tenha uma condição específica, como a doença celíaca ou alergia a lactose. Eu, assim como muitos profissionais, estou disposta e informar e fornecer ferramentas para que você possa fazer escolhas saudáveis na alimentação e tenha uma relação harmoniosa com a comida e o ato de comer.

Quero que registre: o mais importante desse processo de aprendizagem não é exatamente a parte de comer apenas alimentos considerados saudáveis, mas de se reconectar com seu corpo e conscientemente fazer as escolhas. Assim, você poderá optar por coisas que te ajudarão a manter a saúde física, saberá quando a opção mais adequada for comer aqueles doces na festa ou tomar umas cervejas com os amigos e também sentirá quando a melhor decisão não for essa. Independente de que caminho decida tomar, o importante é que você estará no controle: abandonemos o conceito de “certo” e “errado” na alimentação- você possui o conhecimento, você ouve seu corpo e é você quem decide.

Alguns links de matérias e artigos científicos, para quem quiser ler mais sobre o assunto:
Michael Pollan – Unhappy Meals
Judith Matz – Why Diets Make You Fatter And What To Do About It
Confronting the failure of behavioral and dietary treatments for obesity
How effective are traditional dietary and exercise interventions for weight loss?
The war on obesity: a social determinant of health
The health at any size paradigm for obesity treatment: the scientific evidence
The defence of body weight: a physiological basis for weight regain after weight loss
An inconvenient truth about obesity
Behavior Modification in the Treatment of Obesity – The Problem of Maintaining Weight Loss
The Stigma of Obesity: A Review and a Update
Weight Science: Evaluating the Evidence for a Paradigm Shift
“They all work…when you stick to them”: A qualitative investigation of dieting, weight loss, and physical exercise, in obese individuals
Body weight dynamics and their association with physical function and mortality in older adults: the Cardiovascular Health Study
High body mass index does not predict mortality in older people: analysis of the Longitudinal Study of Aging.

3 thoughts on “Fuja da dieta!

  1. Olá, Marcela!

    Você não imagina o sorriso que abri quando li o seu comentário. 🙂
    É uma enorme felicidade para mim saber que os pensamentos que eu coloco por escrito aqui no site possuem o poder de alcançar e tocar alguém, mesmo que seja apenas uma pessoa, e por isso eu te agradeço muito por vir aqui deixar essas palavras.

    Saiba que também me cansei de tudo isso, e foi assim que resolvi iniciar esse trabalho que faço hoje. O que posso te dizer é que é possível, sim, parar de lutar contra si mesma! E minha vontade é que cada vez mais mulheres saibam disso, que todas saibam.

    Espero que continue acompanhando o blog e que sempre encontre por aqui palavras que possam contribuir para você! Mais uma vez, obrigada pelo comentário.

    Abraços!

  2. Ariela, uau!
    Como criança gordinha que virou pessoa que luta a vida toda contra o peso, me identifiquei, sorri e chorei com o seu texto. Tenho 28 anos e acho que sempre me senti inadequada. Tenho peitão, sempre estive engordando e emagrecendo, luto a vida inteira com isso e ando TÃO cansada.. Cansada de não me sentir bem comigo, cansada de tentar e fracassar de novo e de novo.. Esse foi o primeiro texto que li no seu blog, mas pode saber que lerei todos os outros… Ele me deu alguma esperança de resolver essa questão e finalmente poder viver sem a questão do peso sempre coexistindo comigo.
    Juro, queria sentar e conversar horas sobre isso com você.. parabéns mesmo! Pela compreensão, por buscar trazer um visão diferente de tudo que se vê por aí. E obrigada…

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