Sem glúten, sem problemas?

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Saiba como a fuga do glúten pode te levar a algo ainda pior

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Quando eu era criança e tinha acabado de descobrir os dizeres “Contém glúten” nas embalagens de diversos produtos, criei um jogo em que o desafio era encontrar algum em que constasse o inverso, encontrar a informação “Não contém glúten”. Não, eu não fazia idéia do que era o glúten. Não imaginava o porquê de ele receber tratamento especial e ter sua existência anunciada em todas as embalagens. E sim, provavelmente, eu era uma criança com brincadeiras um pouco diferentes, por assim dizer. De toda maneira, o importante é que foi muito difícil encontrar o que eu procurava. Lembro que fiquei surpresa quando vi, por acaso, o “Não contém glúten” na embalagem amarela de amido de milho, mas, mesmo assim, não era bem o que eu queria encontrar. Que criança se importaria com amido de milho? O jogo perdeu a graça porque nenhum biscoito, bolinho, salgadinho, wafer, macarrão ou qualquer outra coisa industrializada que eu consumia era livre de glúten.

Como eu já comentei antes, foi justamente por essa presença universal do glúten, em doses excessivas e com preparo inadequado, que hoje está cada vez mais comum encontrarmos pessoas sensíveis e intolerantes ao seu consumo. E, quem diria, tantos anos depois da criação, aparentemente meu jogo da infância se tornou uma tendência entre os americanos, em especial, os brasileiros: todos estão à procura dos produtos sem glúten, os supermercados tem seções específicas dedicadas a eles, e as opções hoje vão muito, muito além de amido de milho.

Embora eu ache que o interesse nos componentes da nossa alimentação seja ótimo e que a popularização dos produtos sem glúten pode ser benéfica para aqueles que sofrem de alergia a essa proteína, existem três pontos que eu gostaria de destacar e que podem ser úteis para aqueles que estão pensando em evitar o glúten:

1. Quem é ele, afinal?

É mais comum do que eu gostaria ouvir pessoas afirmando o seguinte: “não sei o que é glúten, só sei que é ruim, então vou evitar”. Bom, eu não considero esse um argumento lá muito bom para excluir diversos alimentos da sua dieta, então vamos detalhar um pouquinho mais. Em resumo, o nome glúten corresponde a um grupo de proteínas vegetais de estrutura complexa, as prolaminas e glutelinas, encontradas no trigo, cevada, centeio e algumas outras variedades de cereais. Devido às suas características físico-químicas, o nosso organismo apresenta dificuldade de digerí-la adequadamente e seu consumo excessivo sem o preparo adequado, como vem ocorrendo com a industrialização, sobrecarrega  deteriora o sistema gastrointestinal. Algumas pessoas, que representam cerca de 1% da população mundial, apresentam a Doença Celíaca, que é uma condição de resposta auto-imune causada pela ingestão de glúten, com sintomas imediatos que vão desde dor abdominal até manchas na pele e dores articulares. Mas não é necessário ser alérgico para experimentar alguns efeitos desagradáveis do consumo do glúten, e pessoas que são intolerantes ou apenas sensíveis ao seu consumo podem sentir distensão abdominal, piora de quadros alérgicos, inchaço no corpo e outros sintomas. Para a maioria dessas pessoas, o preparo adequado dos cereais que contém glúten, como deixar de molho em meio ácido ou a fermentação natural, já é capaz de minimizar bastante e até impedir a ocorrência dos efeitos negativos, pois estes processos realizam uma pré-digestão que facilita o trabalho do nosso sistema digestivo. Claramente, esse preparo é impossível de ser feito nos produtos alimentícios industrializados que já vêm prontos, como pães, bolos e biscoitos, o que nos leva ao próximo ponto…

2. Sem glúten, sem problemas?

3 blogA atitude mais comum que vejo ser tomada quando alguém decide não comer mais glúten é substituir os produtos industrializados convencionais por seus semelhantes sem glúten. Ao invés de biscoito recheado, biscoito recheado sem glúten. No lugar de pão doce, pão doce sem glúten. No lugar de massa de bolo pronta convencional, veja só, uma massa de bolo pronta sem glúten. E como essa tendência de ser livre de glúten explodiu em popularidade, hoje temos uma variedade crescente de produtos disponíveis, que muitos acreditam serem melhores e mais saudáveis. Grande erro.
Os produtos industrializados sem glúten continuam sendo extremamente processados, contém excesso de açúcar, gorduras oxidadas e produtos artificiais, como os conservantes químicos, exatamente como seus semelhantes com glúten. E essa ainda não é a pior notícia. Para serem livres de glúten, estes produtos são ainda mais refinados, e feitos com ingredientes substitutos do trigo, como a farinha de arroz, amido de milho, fécula de batata, polvilho e outras farinhas. Essas substituições não são nada saudáveis, porque além de serem ingredientes pobres em nutrientes, são farinhas que causam uma elevação de açúcar no sangue ainda maior do que a causada pelo consumo de farinha de trigo. Isso significa que seu uso constante a longo prazo estimula a ocorrência de processos adoecedores no organismo, os quais predispõem ao ganho de gordura,  estado de resistência a insulina e ao desenvolvimento de inúmeras doenças crônicas. Por mais que tentem vender os produtos industrializados sem glúten como saudáveis e benéficos, a verdade é que eles permanecem tão prejudiciais quanto ou até piores que aqueles convencionais. E seja qual for a razão pela qual alguém tenha interesse em evitar o glúten, acredito que o aumento de gordura abdominal e o adoecimento não são conseqüências bem vindas.

3. Sem glúten, com saúde

3 blogSim, algumas pessoas realmente se sentem bem ao retirar o glúten da dieta, e o motivo está mais do que claro, já que passamos tantos anos sobrecarregando nosso corpo com ele. Eu acredito que todos podem se beneficiar de uma alimentação com consumo reduzido de glúten, assim como do preparo adequado dos alimentos em que ele está presente, mas existem diversas formas de evitar esse componente na alimentação e simplesmente trocar os produtos industrializados por produtos industrializados sem glúten não é nem de longe a melhor delas! Encorajo todos a evitar alimentos extremamente processados e refinados, pois são nutricionalmente deficientes e, pior, prejudiciais à saúde. Produtos livres de glúten podem ser saudáveis, mas quando eles são naturalmente sem glúten. Abóbora, couve-flor, escarola, peixe, manteiga, tomates, ovo… nada disso tem glúten e é tudo muito nutritivo saudável! O ideal é basear a alimentação em alimentos frescos e naturais, evitando a qualquer custo os industrializados, sejam eles com ou sem glúten. Para aqueles que gostam de fazer bolos e biscoitos, como eu, e ainda assim preferem não utilizar ingredientes com glúten, o trabalho é um pouco maior, mas não é impossível! Sugiro apenas não cometer o erro de simplesmente trocar a farinha de trigo por suas semelhantes refinadas, como faz a indústria, mas sim buscar utilizar o máximo de ingredientes nutritivos, pesquisar e testar as receitas. Aqui mesmo no site há sugestões de receitas que não contém glúten e continuam deliciosas! E, claro, quem optar por continuar usando farinha de trigo em suas preparações, lembre-se sempre de realizar o preparo adequado, como falei anteriormente.

Na minha opinião, não adianta permanecer nesta lógica de eleger vilões e mocinhos para a nossa alimentação, não existe um alimento ou nutriente que, sozinho, vai destruir ou salvar a nossa saúde. Devemos nos informar, buscar o equilíbrio e, acima de tudo, cada um deve aprender a entender o próprio organismo e perceber o que faz ou não faz bem para si mesmo.

0 thoughts on “Sem glúten, sem problemas?

  1. Gostei muito do post! Ótimo e bastante esclarecedor para quem entrou nessa nova modinha de dietas livre de glúten. Parabéns 🙂

  2. Oi, Erika! Muito obrigada pelo comentário, fico feliz que tenha gostado do post.
    Se depender de mim, vou desmistificar todas as histórias sobre estes vilões e as idéias de dietas, que nos impedem de ter uma relação saudável com a comida. Equilíbrio sempre, como disse.

    Parabéns também pelo seu trabalho, já te falei como acho legal!

    Beijos e continua acompanhando! 🙂

  3. Oi Ariela,
    Adorei o post e a sua visão sensata sobre o vilão da vez… o glúten. Eu já estou curiosa para saber qual será o próximo inimigo da dieta. Eu também continuo sendo a favor do equilíbrio, sempre. Parabéns pelo blog!

    Beijos

    Erika
    http://www.brigadeirodealface.com

  4. Olá, Sonia.
    Fico muito feliz que esteja gostando das postagens e que tenha feito as modificações na alimentação. Está corretíssima em preferir esses produtos, seu corpo só irá te agradecer! Muito obrigada pelo comentário e espero que continue acompanhando o blog. Abraços!

  5. Ariela, o título do artigo é bem instigante, pois nos leva a ler com atenção para compreender bem o que você quis dizer. Eu tenho fugido de industrializados, das farinhas refinadas, fazendo opção pelos produtos das feiras, como aipim, batata doce, ovos, quiabo, verduras, coco etc.
    Estou gostando de suas postagens.
    Abraços! Sonia Salim

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