O porquê

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O final do ano é a época perfeita para rever nossos atos, agradecer pelo que foi conquistado, mentalizar nossos desejos e, acima de tudo, para encontrar aqueles conhecidos que sempre se prestam a fazer alguma piada desnecessária. Bom, sendo isso quase inevitável, este ano eu faço questão de escolher a que se destinará a mim: considerando meu discurso recente sobre o cuidar da saúde, o foco nos hábitos de vida e a visão integral do indivíduo, os comentaristas engraçadinhos dirão “Ah! Então você resolveu largar a Medicina, não é?”.

Na verdade, estive recentemente pensando sobre isso e concluí que sim. Se a Medicina em questão é a paternalista, aquela em que sempre há um remedinho para sumir rápido com seu problema, a dos exames tão modernos quanto indispensáveis, a baseada em evidências – estas cuidadosamente manipuladas pelos interesses da indústria farmacêutica, sim. Larguei a Medicina em que não há a co-responsabilização do indivíduo pelo seu processo de melhora, onde a orientação sobre os hábitos de vida se resume a um “Tá precisando fazer umas caminhadas, hein. dona Sônia?”, ali, no finalzinho da consulta, quando ocorre. Não vejo por que seguir em uma prática que reduz o ser multidimensional que somos a um problema estritamente físico. Recuso essa tendência de medicalização da vida, a Medicina dos remédios sintomáticos – e não o são quase todos? -, das doenças “idiopáticas”, “essenciais”, “primárias”. E todos os outros disfarces que usamos quando, na verdade, queremos dizer que não se sabe o que está errado. Mas será mesmo que é tão obscuro assim?

Não me daria por satisfeita em receitar uma droga, com todos os seus efeitos colaterais, para apenas reduzir um sintoma, ou pior, para tentar mascarar o aparecimento de uma doença no futuro, e seguir ignorando as causas. Quando o paciente tem febre, utiliza-se um antitérmico, mas o mecanismo que gerou a febre é conhecido, e a causa é sempre investigada. E quando o indivíduo tem a hipertensão arterial chamada primária, que fazemos? O uso de anti-hipertensivos é comum e disseminado, enquanto os mecanismos que geraram esta condição são só especulados, e a origem da doença e a causa do seu aumento expressivo nas últimas décadas permanecem insuficientemente explicados.

Sim, abandonei a Medicina que foca na doença, que literalmente anda remediando tudo, ao invés de prevenir. Mas não deixei a Medicina de todo, já que acredito ainda na prática do cuidar, na busca por aprender e ensinar sobre bem-estar e saúde, e apenas estou percorrendo este caminho de outra maneira. Os piadistas que me aguardem.

Imagem: reprodução Flickr.

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